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terça-feira, 31 de maio de 2016



ARISTIDES DE SOUSA MENDES

Eu sei que morreste pobre
Embrulhado em burel
Dos Franciscanos
Como um pedinte de rua

E que os teus ossos repousam
Num cemitério escondido
Em Cabanas de Viriato,
Esse guerreiro indomável,
Donde bebeste o sangue  e o sol
E de quem herdaste a alma!...

Ambos morreram traídos,
Um pela espada e o outro
Por essa espada maior
Feita de humilhação e castigo
Enquanto vivia...

Levaste aos ombros a mesma cruz
Que o Outro,
Foste vergastado e humilhado
Pelos novos Pilatos
Bebeste o fel até à ultima gota
E caíste vergado pela humilhação.
Morreste num dia sombrio pregado na cruz,
Não ressuscitaste ao terceiro dia,
Mas estás no caminho dos Justos
Nessa mesma Jerusalém milenar
Onde não chegam
Os nomes dos teus
Verdugos…


António Cardoso



sexta-feira, 27 de maio de 2016






MEA CULPA

Eu também sou uma assassina!

Foi nesse julgamento triste e célere
Entre quinta e sexta feira
Que vi castigar o Nazareno de dois mil anos
E lavando as mãos na água de Pilatos
Deixei-o crucificar na praça dos enganos…

Não o defendi  das bestas e dos facínoras
Mea culpa! Mea culpa!
Sou a reincidente de tantos anos.
Deixei uma mãe de rosto triste e descaído
A chorar lágrimas de sangue em tantos panos…

Disse o Nazareno que era Rei, de outro mundo,
E que em nome do Pai desceu à terra,
Para falar dos homens e de Deus,
Aos rostos tristes dar visão,
E em talhas de água verter o vinho
Multiplicar os peixes e o pão...
Que crime cometeu o Nazareno?
Oh! Mea culpa!
Também sou uma assassina sem perdão!
    
          
Anabela Coelho


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Ilusões da vida

Quem passou pela vida em branca nuvem,
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.

Francisco Otaviano


quinta-feira, 19 de maio de 2016




Poema para Deus

Não te engano, nem me engano
Sou imagem reflectida da tua inquietude
Só, na força centrípeta que nos une
Traço horizontes que te motivem

Escorro da lembrança quando te conheci
As lágrimas sem fim dos ciclos de dor
Quiçá, cálice sagrado de cada vida em flor
Pérolas do rosário que desfias

Pergunto-me que te dei do que nada te devo
E quanto me deste do muito que prometes
Nesta simples equação encontrei-te de novo
Quando me disseste: és braço da minha libertação

Voltei a encontrar-te, lembras?
Naquela tarde distante em que te confrontei
Com as armas com que me equipaste
Moldei-as em fogo, delas fiz bordão de peregrinação

Recrio em tudo prece e oração
Em sentir de profunda compaixão
Para colmatar tua inquietude e solidão
Deus, meu companheiro de peregrinação

A.

  

15 Maio 2016

Mário de Sá Carneiro - 19 Maio 1890//26 Abril 1916





Mário de Sá Carneiro – 
19 de Maio 1890 // 26 de Abril 1916




Vislumbre


A horas flébeis, outonais -
Por magoados fins de dia -
A minha Alma é água fria
Em ânforas d'Ouro... entre cristais...

Mário de Sá-Carneiro, in 'Indícios de Oiro' 

terça-feira, 17 de maio de 2016














VINHO DO PORTO

Das lágrimas dos homens e dos Deuses
nasceram límpidas estas águas de ouro
que desenharam o dorso das montanhas
e formaram, ao fundo, o rio Douro…

E dos socalcos de xisto e das alturas
feitos de trabalho intenso e mouro
surgiu um néctar, único no mundo.
cada gota dele é um tesouro!

Um barco navegando medos e procelas
vai descendo o rio, cheio de uvas de ouro
colhidas com o suor de tantos braços
rezando à Virgem que não haja agouro…

E vieram naufrágios, perdas e fracassos,
que as águas revoltas são raivosos touros
mas o homem é feito de rocha, de granitos,
heróis aclamados dos vindouros…

Os mortais, como Noé, sempre beberam
deste vinho de levantar um morto
e os Deuses sorridentes concluíram
Valeu a pena fazermos este Porto!


                           A. Alves Cardoso 


segunda-feira, 16 de maio de 2016



VEM

Perdeu-se nas areias de um mar salgado
O vento sussurrava nas dunas
Trazia um convite antigo
O sonho pertence-te, dizia,
Vem comigo, vem comigo
E repetia, repetia...
Havia cavalos brancos no mar
E das janelas entreabertas nas ondas
Cantavam sereias
E o mar tocava harpa nos cabelos
E nas rochas desertas:
Vem, vem...
Não te prende ninguém.
- Não, não vou, não posso ir
Não plantaram em mim essa leveza
Vê como estou adormecida
Vê como estou presa.

O mar levou-lhe o grito
Chorou-o todas as vezes
Devolveu-lho no eco reproduzido.

Havia um carrossel de espuma
E nenúfares de água salgada
E o mar docemente cantava:
Vem, vem...
Não te prende ninguém!
Vem, vem...


Anabela Coelho


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quinta-feira, 12 de maio de 2016

Um Lugar ( para o 13 de Maio )






UM LUGAR

O coração de uma mulher é um lugar.
No centro, no agasalho das asas, é o lugar dos filhos
Nesse lugar dos mil sois
Com janelas para o mar
Onde pousam as aves
Para aprenderem a direção do voo.

O coração de uma mãe é uma casa
Sem sombras, sem ventanias
Um rio manso com margens humedecidas
De tantos beijos, de muito sono e risos.
É um berço, uma barca com finas velas
Abrindo as águas, claras, da madrugada.

O coração de uma mãe é um livro branco
Que a sua mão invisível vai escrevendo
Com palavras redondas de silêncio.

A mãe caminha, silenciosa, pela lua
Desce, vagarosa, as escadas da alma
E chega ao lugar dos filhos, ao coração
Senta-se no centro, abre as janelas, rega os lírios
Ajeita os folhos das cortinas que as alegram.

A mãe caminha, silenciosa, pela poesia
Sem rima, sem métrica
E sonha nos versos e nas melodias
Bordadas por ela.

E quando uma ferida sulca, abruptamente
Escondendo do seu olhar a estrela-cadente
Ela arqueia-se
Frágil violeta carregada do choro da tempestade.

Nesse instante, como ave suplicante
Leva a lágrima surda para dentro de si
Para o centro do coração
E volta com olhos limpos
Para que nunca se cansem
De olhar para a abundância das rosas.


Anabela Coelho




Manuel Alegre - 12 Maio 1936 (80 anos)




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Trova do Vento que passa 

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio - é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi meu poema na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(Portugal à flor das águas)
vi minha trova florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre, in 'Praça da Canção' 




quarta-feira, 11 de maio de 2016

A canção das nossas vidas





A canção das nossas vidas

As notas saltitam nos socalcos do sono
Não existe cercado que detenha a melodia
com que a lua embala sonhos de neblina
E o vento dança no arame farpado
que ilusoriamente limita a concepção
A pauta alonga-se em ânsia de infinito
e a música flui…doce e forte, tão doce…
A canção molda-se ao espírito, que por amor
se faz refrão do ainda por viver


Maria Adelina


Rumi...simplesmente...

Bravo, Poeta...Pedro Barroso

Augusto Casimiro - 11 de Maio 1889 // 23 Setembro 1967


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Augusto Casimiro
11 de Maio 1889 // 23 Setembro 1967




Viver

…Sofrer, lutar, amar – , vida completa,
Piedosa, humilde e só de Amor ungida –
– Meu coração de amante e de Poeta
– Sente em si mesmo o coração da Vida!...
Sonho exaltado e puro, Amor tão grande,
Que me domina todo e me levanta
Às regiões em que o sentir se expande,
E o coração da Vida sonha e canta!
Vida profunda emocionando mundos,
Lágrimas que nos falam de ventura,
Olhos de amado, olhos de amar, profundos
Olhos de devoção e de ternura!...
Olhos que em tudo sentem a Beleza,
A perfeição e o Amor de Ela,
Amor em que se exalta a natureza,
A fonte, a névoa, a flor, a rocha, a estrela!... 


Augusto Casimiro, in 'A Evocação da Vida' 



terça-feira, 10 de maio de 2016

Luiza Neto Jorge – 10 de Maio 1939 // 23 de Fevereiro 1989


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Luiza Neto Jorge – 
10 de Maio 1939 // 23 de Fevereiro 1989









O Poema Ensina a Cair


O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

Luiza Neto Jorge, in 'O Seu a Seu Tempo' 





segunda-feira, 9 de maio de 2016




Se...

Se eu tivesse o dom da palavra
E fosse tecelão de frases e verbos
Faria um tapete imaginário de rosas
E uma casa algures poisada nas nuvens...

Se os dedos conseguissem ser violinos,
Oboés, cítaras ou mágicas flautas
O teu acordar seria sempre uma festa
E adormeceria sob o pianíssimo de uma sonata barroca....

Mas sou o que sou, limitado, imperfeito,
De voz rouca e dedos sem asas
Mas mesmo assim queria voar
Por entre os céus dos teus braços abertos...

Que ninguém é dono de todos os sonhos
Nem pastor de futuros e ânsias
Que nos povoam o peito
Apesar de rasteiro, eu quero ser mais,
Apesar de caído, eu anseio voar... 


                                               A. Alves Cardoso




domingo, 8 de maio de 2016

Ana Hatherly - 8 de Maio 1929/ 5 de Agosto 2015







Ana Hatherly
8 de Maio 1929/ 5 de Agosto 2015






O poeta é um guardador

 o poeta é um guardador 

guarda a diferença
guarda da indiferença

no incerto
guarda a certeza da voz 


Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades" 




sábado, 7 de maio de 2016

CONVITE Manhã de Poesia de 8 de Maio


Rabindranath Tagore





Rabindranath Tagore
7 de Maio de 1861 // 7 de Agosto de 1941

Prémio Nobel da Literatura em 1913








Amor Pacífico e Fecundo


Não quero amor
que não saiba dominar-se,
desse, como vinho espumante,
que parte o copo e se entorna,
perdido num instante.

Dá-me esse amor fresco e puro
como a tua chuva,
que abençoa a terra sequiosa,
e enche as talhas do lar.
Amor que penetre até ao centro da vida,
e dali se estenda como seiva invisível,
até aos ramos da árvore da existência,
e faça nascer
as flores e os frutos.
Dá-me esse amor
que conserva tranquilo o coração,
na plenitude da paz!

Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera

sexta-feira, 6 de maio de 2016




SE ME MEDIRES
(a partir de Daniel Faria)

Se me medires com os palmos
Da tua mão invisível
Sou apenas o eco de um  milímetro teu
Ainda assim, em teu redor
Como o insecto à volta da lâmpada
Semelhante é o efeito
Da atracção à luz.


Anabela Coelho