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terça-feira, 22 de maio de 2018

EU NÃO VOS OUÇO




EU NÃO VOS OUÇO

Dizem-me alguns com olhos sábios
Não vás por aí.
Pois não.
Mas por mais força que faça
Sou obrigado a ir por aí.
Nas autoestradas apontam-me a via verde
Nos bancos as malditas caixas multibanco
Como espantalhos agarrados às paredes
Nos telefones eles berram
Se quer isto marque 1
Se quer aquilo marque 2
E ali estou eu como um pobre tolo diante de um castelo
A tentar abrir as portas
E a ir por onde não quero ir.
Já não sou sequer dono do dinheiro
E não posso pagar como eu entenda.
Use o cartão. O cheque é caro.
E vejo-me a ir por onde
Os cães me levam prisioneiro
Gritando inutilmente contra o vento.

António Alves Cardoso


segunda-feira, 21 de maio de 2018

ALMA














ALMA

Sim… sim… a alma
O éter voando no espaço
Naquele azul redondo
E faminto
Que ninguém consegue agarrar…

Para chegar até ela
Preciso de escadas
Preciso de subir mais alto
Por degraus de luz que não há…

Arrasto-me pelo chão
Pelo solo onde caminham os ossos
Deixando sulcos e marcas
Que o tempo vai apagando …

Eu queria ser alma!
Eu queria ser pássaro!
Ser o azul redondo
De tudo o que sonho e desejo!…

Queria ser o Outro
O que voa, o que sonha
O que ousa…

E fico espalmado
Como um paquiderme
Sem asas, sem rasgo…
A esvair-me de todo o azul possível
No asfalto da vida… 

A. Alves Cardoso 


NAS MÃOS DO VENTO



Sou nas mãos do vento o que quiseres
o frágil ramo torcido, a erva trucidada
por pesadas patas, os malmequeres
desfolhados pela mão diabólica, pesada.

Sou um barco sem rumo nas procelas
um seixo branco rolando pelos rios
o xaile roto e preto das donzelas
a tapar os insuportáveis frios.

Sou o que for, tudo o possível,
pedreiro de mim próprio, e de paredes,
cauteleiro da sorte e do impossível,
tecedor de dúvidas, de angústias e de sedes…

Sou, no silêncio, uma certa ânsia
um vazio dos outros, um mar distante,
sempre à espera do longe e da distância
na busca efémera do instante…

Sou o que sou, tão vago, tão ausente,
tão cheio de sede e tão vazio!
No equilíbrio instável do presente,
Sou um barco parado em seco rio…


  António Alves Cardoso





domingo, 20 de maio de 2018

"O homem lavrando o sol, arroteando versos e rimas, semeando as terras lavradas, de sementes da alma…"


Ao Mar


Avé vida

Na ternura que te canto
Quando me falas singelo
De tuas vitórias e pranto

Avé vida

Na doçura com que imito
O teu urgente lamento
De sorriso mascarado

Avé vida

No abraço encoberto
Tapete de seda e rosas
Que a teus pés desfolho

Avé vida






domingo, 13 de maio de 2018

Um Lugar ( para o 13 de Maio ) - Ciclo Anabela Coelho



UM LUGAR

O coração de uma mulher é um lugar.
No centro, no agasalho das asas, é o lugar dos filhos
Nesse lugar dos mil sois
Com janelas para o mar
Onde pousam as aves
Para aprenderem a direção do voo.

O coração de uma mãe é uma casa
Sem sombras, sem ventanias
Um rio manso com margens humedecidas
De tantos beijos, de muito sono e risos.
É um berço, uma barca com finas velas
Abrindo as águas, claras, da madrugada.

O coração de uma mãe é um livro branco
Que a sua mão invisível vai escrevendo
Com palavras redondas de silêncio.

A mãe caminha, silenciosa, pela lua
Desce, vagarosa, as escadas da alma
E chega ao lugar dos filhos, ao coração
Senta-se no centro, abre as janelas, rega os lírios
Ajeita os folhos das cortinas que as alegram.

A mãe caminha, silenciosa, pela poesia
Sem rima, sem métrica
E sonha nos versos e nas melodias
Bordadas por ela.

E quando uma ferida sulca, abruptamente
Escondendo do seu olhar a estrela-cadente
Ela arqueia-se
Frágil violeta carregada do choro da tempestade.

Nesse instante, como ave suplicante
Leva a lágrima surda para dentro de si
Para o centro do coração
E volta com olhos limpos
Para que nunca se cansem
De olhar para a abundância das rosas.


Anabela Coelho




"EM VERDADE VOS DIGO"




"EM VERDADE VOS DIGO"

Quem disse que eu não durmo?!
Que dou o sono que eu não tenho
Ah! como se enganam
Na procura da minha ovelha separada
Deixo-me adormecer no meio do rebanho
E ainda sonho a manhã clara.
E  "Em verdade vos digo"
Toda a minha sonolência vem da terra
Porque são raros os profetas da verdade
Tão poucos os que vivem em comunhão
São poucos os que trabalham a vinha
São tão poucos os que vejo em oração.
Vejo um rio de gente que vai ao fundo
Sinto sinos chorando tristezas do mundo
Seres tão tristes que se arrastam abandonados
Semente que germina no círculo vicioso do pecado.
Escuto tão poucos risos das crianças
Minha obra prima, pássaros brancos, que são anjos
São tantos os meninos que não brincam
São tantas as criaturas que se calam
São tantos os inocentes que me chegam
Abafados na violência da terra...
Eu! "Em verdade vos digo"
Dou-lhes luz, embalo-as
E adormeço com Elas!


Anabela Coelho

sábado, 12 de maio de 2018

O RISO DAS CRIANÇAS - (Ciclo Anabela Coelho)



O RISO DAS CRIANÇAS

Onde está o riso das crianças?
Que amam a vida plenas de espanto
E nos prendem com ternura
Por nos quererem tanto...
Onde estão?
Não correm pelos campos
Papoilas soltas ao vento
Tão cheias e tão leves...
Onde estão?
Elas que sabem voar
E em bicos de pés tocam no céu,
E quando à noite o céu estrelado,
Majestoso se ilumina para elas,
Cansadas, ainda riem 
E adormecem nas estrelas.
Onde está o riso das crianças?
Que amam a vida plenas de espanto
E nos prendem com ternura
Por nos quererem tanto...


Anabela Coelho


Pela Minha Mão - (Ciclo Anabela Coelho)




PELA MINHA MÃO










Se me pedisses para pintar o verão
Verias um sol em mãos douradas sobre as searas
E nos montes cordeiros brancos, soltos
Olharias o mar a elevar-se à distância
E um arado lavrando na espuma
Seria violácea a sua voz húmida
E mais plácidos os cânticos
E os apelos das sereias
Não faltaria o luar no abraço de silêncio
Velando a ventura noturna
No seu brocado de rebeldia
E as crianças no seu dom de serem leves
Saltando de sonho em sonho
Nos ladrilhos cintilantes, soletrando o dia
Haveria um calendário de sílabas brancas
A repetir-se em gestos ledos em agosto
Sempre em agosto
A dourar os cabelos
E as maçãs do rosto
Soltaria, no céu da manhã, todas as aves
E os seus cantos
E flocos de neve e de nuvens vestindo anjos
E tiaras de margaridas brancas, brancas
Agitando-se em sublime sentinela
Um arco-íris riscando o céu
A beber nos teus olhos um arroio de cores
E eu seria um barco
Um lenço de prata no convés
Talvez um rio, talvez uma fonte
Um fio de água orvalhando-te os pés…
Se me pedisses para pintar o verão
Acrescentava o que lhe falta
O olhar que trago por dentro
O pouco que tenho, o pouco que me resta
Desprenderia as flores do meu vestido
Das nossas bocas os risos
E os versos
E o verão, meu amor, era uma festa!

Anabela Coelho



sexta-feira, 11 de maio de 2018

A VIDA TODA - (Ciclo Anabela Coelho)



A VIDA TODA (evocando Vergílio Ferreira)

Ainda não dei a volta à vida toda
Eu quero viver o meu próprio acontecer
Eu quero a absoluta presença de estar sendo
Sem o clandestino pensamento que apavora
Sem o alarme, a nudez de um fim do mundo
Eu quero dar a volta à vida toda.
Eu quero a plenitude, a posse de mim mesma
E sobre um fundo gravado a vida, ser surpresa
Sentir-me um imortal, um criador
Ser vida num corpo que é meu
Ser este triunfo sobre o mundo
Eu quero o fascinante milagre de ser eu!
Eu quero a nobreza do instante, o sem limite
Eu quero dar a volta à vida toda
Eu quero viver as vidas todas nesta vida
Eu quero viver nesta vida as vidas todas

ANABELA  COELHO

3º prémio na 7ª Edição do  Concurso de Poesia - Condeixa