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quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

O ausente dos ausentes





Tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo
em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
Eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente 


Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Não me adorem...



Acerca a tua mão da minha...
Não me adorem, caminhem a meu lado…
Altar?..... Apenas me recolho ao vosso coração
Sentirei o vosso amor, nos olhos, onde os vossos se espelhem
Dor? Porque teimais em manter-me preso a ela, se dela vos libertei!
Da cruz renasci, em templos nunca me vi não sou gesso ou tela pintada!

Sou a Água da Vida que corre em ti
Sou o brilho do teu olhar quando sorris
Sou o arco da tua mão quando dás
Sou o calor do teu gesto de amor

Eu Sou, sempre em Ti – Não te esqueças Tu de Mim

Yeshua



A.



sábado, 9 de dezembro de 2017

Creio





Creio

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. amém.


Natália Correia


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Entardecer





ENTARDECER

Cai do céu vespertino
Uma trémula folha
De outono.
Desce no coral do dia
Vem a dançar
Como uma pétala
Borboleta amarela
Para tombar, docemente
Na terra faminta
Que a espera.

Anabela Coelho


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

A VISÃO


Há-de vir um dia, talvez de madrugada,
em que as mulheres bordarão em oiro fino
com suas novas mãos, no mundo, outro destino

Há-de vir um dia, talvez de nevoeiro,
que solte as asas dos talentos encobertos 
que o tempo levará a tempos mais despertos

Há-de vir um dia, talvez de ondas bravas
em que a voz, a pena, o trabalho e o estudo
construam e desconstruam o nada e o tudo

Há-de vir um dia, talvez só com estrelas,
em que mulheres como iguais, não será mito,
comandarão mansas armadas pelo infinito


Fina D`Armada

domingo, 3 de dezembro de 2017

Hora - Sophia de Mello Breyner Andresen


Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 2 de dezembro de 2017

Pequenas Palavras



Pequenas Palavras

De todas as palavras escolhi água,
porque lágrima, chuva, porque mar
porque saliva, bátega, nascente
porque rio, porque sede, porque fonte.
De todas as palavras escolhi dar.

De todas as palavras escolhi flor
porque terra, papoila, cor, semente
porque rosa, recado, porque pele
porque pétala, pólen, porque vento.
De todas as palavras escolhi mel.

De todas as palavras escolhi voz
porque cantiga, riso, porque amor
porque partilha, boca, porque nós
porque segredo, água, mel e flor.

E porque poesia e porque adeus
de todas as palavras escolhi dor.


Rosa Lobato de Faria


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Homenagem na data da sua morte.




O meu olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E, de vez em quando, olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Fernando Pessoa - Alberto Caeiro



quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Preservação...a palavra de ordem



Quantas Cores o Vento Tem

Tu achas que sou uma selvagem
E conheces o mundo
Mas eu não posso crer
Não posso acreditar
Que selvagem possa ser
Se tu é que não vês em teu redor
Teu redor

Tu pensas que esta terra te pertence
Que o mundo é um ser morto,
Mas vais ver que cada pedra, planta ou criatura
Está viva e tem alma, é um ser.

Tu dás valor apenas às pessoas
Que acham como tu sem se opor
Mas segue as pegadas de um estranho
E terás mil surpresas de esplendor

Já ouviste um lobo uivando no luar azul
Ou porque ri um lince com desdém
Sabes vir cantar com as cores da montanha
E pintar com quantas cores o vento tem
E pintar com quantas cores o vento tem

Vem descobrir os trilhos da floresta
Provar a doce amora e o seu sabor
Rolar no meio de tanta riqueza
E não querer indagar o seu valor

Sou a irmã do rio e do vento
A garça, a lontra, são iguais a mim
Vivemos tão ligados uns aos outros
Neste arco, neste círculo sem fim

Que altura a árvore tem
Se a derrubares não sabe ninguém

Nunca ouvirás o lobo sob a lua azul
O que é que importa a cor da pele de alguém
Temos que cantar com as vozes da montanha
E pintar com quantas cores o vento tem

Mas tu só vais conseguir
Esta terra possuir, se a pintares
com quantas cores o vento tem

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=Jc87pWX87Xg