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quinta-feira, 14 de junho de 2018

Carta A Um Amigo



Bom dia Fernando Pessoa.

O tempo tem passado
E ultimamente pouco ou nada se tem dito sobre ti.
Não que as outras coisas sejam mais importantes, não
Mas porque nos afligem mais.
Estamos em crise
E a crise mete medo
E dá tanto dó pensar por que estamos em crise.
Olha, é uma tristeza como se ousa dizer.
Não por culpa da crise
Mas pela malvadez daqueles que a provocam.
Repara que não estou a falar só de incompetência
Mas da vontade infeliz e quase comezinhamente eterna
Do homem que escraviza o seu irmão.
Quando falo de homem
Falo à escala mundial, como é nosso apanágio.
Faz parte da nossa filosofia Templária, como bem sabes
E, por isso, o homem deveria ser Homem
Pois só assim deixa de ser animal.
E temos tantos homens por aí a governar.
Hoje, se fosses vivo, farias anos, muitos anos
Mas poucos se lembram verdadeiramente de ti.
Até mesmo do outro António
Que morreu no dia que escolheste para nascer.
Só o querem para bailar
E comer umas sardinhas.
Ah, e também para casar uns noivos
Coisas que se inventam porque fica bem.
Mas também não é de Camões que se tem falado
Pois também não se fala mais dele.
E quando aparece é só para chatear a cabeça dos jovens
Que fazem exame.
É quase como contigo.
É a crise sabes e a crise é feita pela malvadez
E pela incompetência como já te disse
O que, ao que parece, não é bom
Trazer essa famigerada criação à memória.
Até parece que tudo está bem
E a nossa alma Lusitana medra de viçosa.
Será que não existe forma de estar vivo depois de se morrer?
Já nem isso, coisa em que era perito o nosso país.
Ao que se chegou.
Sabes, hoje temos televisão
E tudo se faz para o egocentrismo
Dos que querem parecer bonitos, mesmo sendo feios.
Estou a falar de uma retórica de interesses, claro.
E tudo é tão efémero que eles não dão conta que o são.
Nós não o somos, bonitos, claro, mas nem isso nos interessa
Só o categórico do tempo.
Olha, estou na biblioteca da minha escola
Sentado junto à janela por onde passa a vida lá fora.
Em frente e do meu lado direito tenho dois bustos teus.
No que fica em frente estás pensativo como sempre.
Trazes um livro na mão
Que aconchegas carinhosamente contra o peito.
No que fica à minha direita estás quase que diria bonito
Foste feito sob um trabalho fértil de imaginação
Dos nossos alunos e estás revestido de frases tuas
Como por exemplo: “Não posso estar em parte alguma.
A minha Pátria é onde não estou.”
A nossa Pátria, Pessoa, não está bem.
Sabes que temos uma dívida soberana
Repara é coisa bonita de se dizer
Uma dívida soberana, descomunal
Potencialmente maior que Portugal.
É assim, somos pequeninos
Mas quando temos de ser grandes, ah…
Somos como os franceses. Que pensas.
Às vezes, no meio desta pequenez saloia, pergunto-me
E já agora se me souberes responder
Que mistérios nos reservam os “deuses”
Para cumprir Portugal?
Ou será que eles também não têm capacidade
Para reservar nada
Nem sequer um bom quarto de hotel?
Pois, isso é para bons turistas
E eles ainda não estão nessa particularidade superior de ser.
É como nós que nos fica bem permanecer em casa
Tristes, contentes com o nosso lar.
Bom, mas, diz-me, como estamos
Perante essa ideia do Quinto Império?
O que diz o Agostinho que deve estar aí contigo
A comemorar, ou não, o dia em que nasceste para nós?
Está pensativo como sempre?
Ah, refugiou-se num outro Brasil
Pois a pátria continua igual.
Sim, bem sei
O tempo passa e nada muda.
E o Vieira?
Está chateado.
Pois outra coisa não era de se esperar.
Ah, o Bandarra, nem diz nada. Pois.
Não me digas, então isso do Quinto Império
Ainda é coisa para o próximo século?
Ó como somos grandes na boa vontade que nos move.
E vamos continuar assim, na mesmice do costume
Por tempos infindáveis?
Já estamos habituados, eu sei.
Queres dizer que nem os “deuses” conseguem fazer nada?
Não? são piores que nós?
Pois, está tudo doente.
Sim, mas a nossa Pátria
Que é aquilo que nos interessa
Não está a passar nada bem.
E sua saúde é uma obrigação nossa.
Não porque os políticos tenham a obrigação de pensar em ti
Mas porque não pensam também nela pensando em ti.
Sabes, já te disse, são todos iguais, só pensam neles.
Ainda te lembras?
Pois é, continuam iguais
Na forma como se acham superiores a nós.
Sim a nós povo.
Pois nós somos povo e estamos com sorte.
Olha que há uns tempos ouvi alguém dizer
Que os políticos tinham de ser bem pagos
Para não se deixarem corromper.
Achas que tal poderia acontecer connosco?
Nem isso, não é?
Coitado do povo, nem isso.
Não tem a capacidade para se deixar corromper.
Não valemos nada. Nem para isso.
Também ninguém nos liga.
Mas temos de continuar a ser e a ousar ser.
Talvez lá para frente consigamos alguma coisita.
Claro, sem corrupção, que nós temos dignidade.
De qualquer modo hoje temos um novo António
Que é cabeça de um cartaz humilde ao serviço dos povos.
Pode ser por aí? Boa.
Olha, pelo menos a nossa língua
Que era a tua Pátria, como bem dizias
Está firme e recomenda-se.
Talvez nos mostre o caminho a seguir.
Quem me dera que mais alguém te escrevesse uma carta
Ou um poema, ainda que tal pudesse ser ridículo
Ou que te dirigissem apenas um pensamento de obrigado
Por teres nascido português.
Perante tanto desleixo de sermos nós próprios
Dirias se apenas fosses Alberto Caeiro
Deixem-me estar na Natureza
Que eu já não sou ente entre os mortais
E os homens, se é que têm Pátria, que cuidem dela.
Se fosses Fernando Pessoa dirias efetivamente
Para cuidarem dela.
Mas o que são os homens
Fora dos motivos em que se movem?
Bestas saudáveis que procriam?
Concordo, é muito pouco.
E já agora que estás desse lado, julgo eu
Pois ainda não te revi por aqui
Será que existem mesmo seres na Natureza
Para além desta que conhecemos?
Perante o teu silêncio acho que percebi.
“Triste de quem vive em casa
Contente com o seu lar, (…).”
O problema é que no lar triste que é hoje Portugal
A entristecer como tu dizias
Grande é o povo que sublima a tristeza
Dos que por incompetência ou malvadez
Tornam triste este nosso lar
Sem estarmos contentes com o facto de estar em casa.
Tu também nunca cá estiveste contente
E nascestes português por opção.
Acontece com muito de nós.
Triste sina a nossa.
Bem, com estas cabeças de cartaz
Quem se preocupa com o teu pensar?
Se hoje pudesse estar contigo
Apenas te daria um abraço
Pois, que sobre o resto, só a meditação do silêncio
Para saber “que tudo vale a pena
Quando a alma não é pequena.”
Esperemos que o resgate se faça
Após derrubarmos em definitivo o Bojador
E que no confronto direto com nós mesmos
Afundemos o Adamastor
Para velejarmos num barco mais sublime
Ao sabermos que Alma temos e o que é o Bem.
Ainda falas da Prece?
Sim a inquisição já acabou
Mas ainda não encontramos a Distância
De algo que seja mesmo nosso.
Por isso, como queres que a conquistemos?
Cada vez estamos mais estrangeiros
E já nos habituamos a isso
Pois ninguém fala nisso.
O que é mau.
Só mais um pormenor.
Como estás tu no aviso do Terceiro?
Achas que a Hora está breve?
Ah, a de Portugal ainda não.
Mas a do sonho das eras português sim?
Queres tu dizer que breve é a hora de um encoberto olhar?
Boa, ao menos isso. Fico contente.
Obrigado amigo, esperemos então.

Um abraço de osmose gnóstico - poética.

Rui Fonseca

Amigo -


Amigo

Poisa a tua cabeça dolorida
Tão cheia de quimeras, de ideal
Sobre o regaço brando e maternal
Da tua doce Irmã compadecida.

Hás de contar-me nessa voz tão q'rida
Tua dor infantil e irreal,
E eu, pra te consolar, direi o mal
Que à minha alma profunda fez a Vida.

E hás de adormecer nos meus joelhos...
E os meus dedos enrugados, velhos,
Hão de fazer-se leves e suaves...

Hão de poisar-se num fervor de crente,
Rosas brancas tombando docemente
Sobre o teu rosto, como penas d'aves...

Florbela Espanca


terça-feira, 5 de junho de 2018

"Caminho com Letras"



Estimados Amigos da Poesia, apresento-vos um novo blogue que anexei à lista dos que seguimos.
O editor deste blogue, Fernando Teixeira, dando os seus primeiros passos na escrita, participou recentemente na sua primeira colectânea que recomendo.
Assim também, que sigam o blogue onde vão encontrar as pérolas frescas que renovam a poesia.





sexta-feira, 1 de junho de 2018

Somos cada um de nós responsáveis por todas as crianças do nosso mundo


 CRIANÇAS
 DZIECI 

Crescem improvisadamente do amor
E depois, de repente, adultos
Vagam de mãos dadas na grande multidão
Coração capturados como pássaros,
Perfis desbotados no crepúsculo.
Sei que no coração deles pulsa toda humanidade
De mãos dadas sentam-se calados nas margens
Do tronco de árvore, terra ao luar
Triangulo que arde no sussurro inacabado
Ainda não se dissipou a névoa
Corações de crianças pairam sobre o rio
Pergunto:
Serás sempre assim
Quando se levantarem e forem embora?
Ou de outra maneira?
Uma taça de luz inclinada entre as plantas
Revela um fundo ainda desconhecido
Sabereis preservar o que em nós teve inicio?
Separareis sempre o bem do mal?

João Paulo II

Poemas para Crianças - A Casinha de Papel



domingo, 27 de maio de 2018

TESTAMENTO





TESTAMENTO

Depois de fechar olhos
São livres de vender as casas de renda, os pinhais
Os carros, os móveis, as acções
De levantar as poupanças, os depósitos a prazo
E o pouco que tiver à ordem.

Mas hão-de penar nos infernos
Se ousarem vender a casa-mãe
Os aidos, as terras que rodeiam a casa
E de onde sempre brotaram águas boas e grandes.
Nem é pelo valor
É pelos passos, pelas mãos gretadas, terrosas
Pelos olhos que ali se demoraram
Pelas árvores que cresceram connosco
Familiares e frutíferas
Pelos cheiros que se entranharam na terra
E ressumam
Pelo mel das colmeias amigas
Que conheciam os donos
Pelos corpos a amarem-se entre os fenos e trigos
Pelo respirar antigo dos meus mortos
Pelas palavras que impugnam os solos
Como bocas presentes em tudo o que cresce
Como se elas nascessem e morressem ali
Como nós.
Pelos nomes familiares que lhes demos
Como se fizessem parte da nossa família.
Ali estão os rostos, os olhos, os sonhos
Ali estão os segredos, as lutas, as veias jugulares da existência
Sinais indeléveis, sinais de quem cuidou
Amorosamente da terra e dela recolheu
os frutos que enchem as tulhas
e os altos fumeiros.
Há ali, em tudo, vidas suspensas
Vidas que se fundiram nos húmus
Que se entranharam nos poros
E que são a nossa identidade profunda.
Cada árvore, é um todo, com alma, com nome.
Cada espaço, a larga extensão de nós mesmos
E ali, naquela harmonia que não se
Encontra nos livros, abundam as vozes
Que dançam ainda entre as árvores
E que não devem espantar-se.
Eles pertencem ali.
Nada ali é anónimo. Tudo tem nome
As árvores, as fontes, os sítios, os caminhos, os muros
E há uma simbiose como se
A mão forte do meu pai
Ainda estivesse poisada no tronco das cerejeiras
Ou corresse ainda pelo ondear das searas
Como o acariciar-se o lombo molhado dos bois
Ou a voz mais suave da mãe
Não fosse capaz de espantar as aves que debicavam o sol
Nas negras terras lavradas
Ou ainda se ouvisse o rumorejar
Dos nossos passos correndo
Atrás de borboletas mágicas e pássaros alados.
Talvez vos convença a não vender
Se forem sentar-se, no crepúsculo,
Diante daquela catedral
Onde reina o silêncio de tantas vozes
Impressas
E hão-de ouvir de certeza
Os meus passos
No tempo das cerejas, no tempo das uvas
Como a lembrar-vos de que ainda
Ali moro.
Há em cada tronco das árvores
Em cada muro ou parede
A sombra de quem acabou
De tocar-lhes.
E vejo tudo por entre as árvores
Como algo fugitivo e distante
Como algo perene e presente
É nesse espaço que eu moro
E que habitam as vozes de que sou feito
É um território só compreendido
De quem vê para dentro
Sentem-se no alpendre
Defronte da casa, junto à capela
E olhem em volta
Tudo o que vêm sou eu
E as vozes de todos os outros
Daqueles que ao morrer
Me deixaram este mesmo desígnio
Vendam tudo, mesmo tudo
Mas não me vendam a alma.

António Alves Cardoso

O PÃO




O pão adormecia longamente nas masseiras
Até o forno vigoroso e forte
Se encheu de lumes
E aquela espera se transformar em rede cheia
De saborosos paladares…

A minha mãe, enfarinhada
Retirava as broas
Que haveriam de durar
Toda a semana…

As nossas bocas
Retalhavam aqueles odores quentes
Como uma plenitude toda
Digna de filósofos…

António Alves Cardoso