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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Meu amor, meu amor



Meu amor meu amor

meu corpo em movimento

minha voz à procura

do seu próprio lamento.


Meu limão de amargura meu punhal a escrever

nós parámos o tempo não sabemos morrer

e nascemos nascemos

do nosso entristecer.


Meu amor meu amor

meu nó e sofrimento

minha mó de ternura

minha nau de tormento


este mar não tem cura este céu não tem ar

nós parámos o vento não sabemos nadar

e morremos morremos

devagar  devagar.


José Carlos Ary dos Santos





domingo, 13 de agosto de 2017

Saudade














Que saudade
tenho de nascer.
Nostalgia
de esperar por um nome
como quem volta
à casa que nunca ninguém habitou.
Não precisas da vida, poeta.
Assim falava a avó.
Deus vive por nós, sentenciava.
E regressava às orações.
A casa voltava
ao ventre do silêncio
e dava vontade de nascer.
Que saudade
tenho de Deus.

Mia Couto

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Os capacitados por Deus




Os capacitados por Deus

O mar cósmico é o berço da alma
Dá-se, em fluxo e refluxo pausado
Em seu seio os que navegam à deriva
Flores tão belas, as preferidas de Deus
Batidas pelas ondas esquecem seu brilho
E pelo canto das sereias distorcem sua luz
Por vezes perdem o rumo
Aconchegam-se no palco fútil
Ilusória rede de sustentação
Onde a Palma do Amor, se retrai

Nina


Mensagem a um Desconhecido




Mensagem a um Desconhecido

Teu bom pensamento longínquo me emociona.
Tu, que apenas me leste,
acreditaste em mim, 
e me entendeste profundamente.

Isso me consola dos que me viram,
a quem mostrei toda a minha alma,
e continuaram ignorantes de tudo que sou,
como se nunca me tivessem encontrado.



Cecília Meireles


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Nascer a cada dia















Com um Anjo aprendi que podemos nascer, a cada novo dia
Que a velha frase "se eu soubesse o que sei hoje" tem serventia
Em "circa diem" o mesmo cenário renovar, e outra obra realizar
Naus transformadas,  viajantes sem milhas em mares circulares
Abraçar o tornado como a um cavalo alado e  deixar-se levar
Sentir o sabor do mar sem o definir como  doce, ou salgado
E as tempestadas, berços de junco em mão amorosa embalados
Em cada homem decalcar o amor, apenas com a tinta do olhar
Aos rostos mil vezes encontrados dizer, muito gosto em conhecer
Toques harmoniosos dos sinos celestes nas horas das trindades
Ao findar cada dia, a nau enfeita o cais com os seus tesouros
No raiar da aurora, zarpa segura a circun_navegar um novo dia

A.

6 de Março de 2012

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Salvador Sobral & Júlio Resende - Regret - Poema de Fernando Pessoa

DE COIMBRA A LUÍS DE CAMÕES



Olha, Luís, acorda do teu sono
Mete-te a caminho, cuidado com as botas
E vem vê-lo manso, já com dono,
Com água todo ano e com gaivotas...

Que musas cantarias hoje? Inês.
A que depois de morta foi rainha?
Está tudo tão mudado, Luís, não vês?!
Então vem ver! Levanta-te e caminha...

Já não há musas como dantes,
Daquelas fidelíssimas, devotas,
D`olhos de sonho, fieis, virgens, amantes.
Até o rio é outro! Com gaivotas.

Mas pode ser que também tu estejas mudado
E vendo as saudosas margens do Mondego,
Polvilhadas de casas e fábricas, fiques chateado
E não venhas cá tão cedo.

Mas se vieres, pode ser que encontres uma
Musa, divorciada até e mãe de filhos,
Que, em verso, vestiremos de azul e espuma,
Caminhando fresca e segura entre os junquilhos...

António Alves Cardoso


sábado, 5 de agosto de 2017

O que passa, ou não passa




Passam as correntes dos rios
Mas ficam ricos sedimentos que
Formam seu leito e orientação

Ou as marés nos mares
Que ao sabor da lua passam
E o eixo da terra, equilibram

Passam os ventos gélidos
Que amaciam os cumes
E renovam a agreste flora

Ou as brisas quentes
Tapetes voadores dos estames
Que vão florir adonde quer

Passam as águas do garimpo
Mas o bom minério
Fica no fundo da bateia

Passam os ilusórios enganos
As palavras decoradas
As sombras forjadas

Só não passam
As sendas de Deus em nós
E o que nos tocou o coração


Maria Adelina



No 1º aniversário da sua morte - Vander Lee - A Voz