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quarta-feira, 13 de julho de 2016




ILHA TERCEIRA

Minha Ilha!
Ilha de Jesus Cristo, cor do lilás!
Eterno berço!
Recebeste-me com o olhar colorido e feliz da hortênsia
perfumaste-me com o aroma do teu mar salgado
embalaste-me por entre a pacatez da paisagem
e a bravura da tempestade.
Alegraste-me com os teus sons
o canto das gaivotas que teimam em beijar a terra
ensinaste-me nas matrizes e catedrais a orar, ao divino espírito santo
afastando os sismos que pairavam com voz sentida
a fúria do mar, dos vulcões e ventos vindos da serra.
Aprendi o amor na pequenez
e a sensibilidade na paisagem que não entristece, nem cansa.
Em ti chorei!
Em ti me alegrei!
Memórias que pouso nas touradas, terreiros, arraiais
minha praia de escuro areal.
Minha flor de raiz comovida!
Minha vida!
Orgulha-me a tua historia
as tuas cidades cheias de brilho e valor
Angra do Heroísmo e Praia da Vitória
pela riqueza do seu esplendor
e canto hinos de glória
para eternizar em ti o meu amor.
Terceira, minha terra
Terceira, terra minha.
Oh, que saudade de te reencontrar
pelo o que a tua vida encerra
e por tudo o que tens para dar
és pérola do mar à serra
que me encanta da serra ao mar.

Álvaro Lima




terça-feira, 12 de julho de 2016

Na efeméride da sua morte ( Julho 1923) recordemos Guerra Junqueiro

)

ah Poeta`S... tantos e bons...isto é Portugal...bravo Pedro!


















O DOS CASTELOS
      

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.



Fernando Pessoa, in Mensagem 


domingo, 10 de julho de 2016
















DIANTE DA CRUZ, NUMA IGREJA  

A hora é de trevas
E tu vais morrendo
Como um sol a apagar-se…

No alto, a cruz
Em baixo, os joelhos em sofrimento
Num calvário de dores repartidas…

O silêncio esmaga
Nas colunas suspensas
Na penumbra das almas
Na solidão de quem continua sozinho…

E se queres saber
Não sei de nós quem mais sofre
Se tu, rodeado de luzes e flores
Se eu, de joelhos
No lajedo frio da nave…

Às tantas morremos os dois
Na mesma sexta-feira de trevas
Mas tu ressuscitas
E eu apodreço na vala comum
Do esquecimento.

A. Alves Cardoso 



sábado, 9 de julho de 2016


 CRIANÇAS
 DZIECI 

Crescem improvisadamente do amor
E depois, de repente, adultos
Vagam de mãos dadas na grande multidão
Coração capturados como pássaros,
Perfis desbotados no crepúsculo.
Sei que no coração deles pulsa toda humanidade
De mãos dadas sentam-se calados nas margens
Do tronco de árvore, terra ao luar
Triangulo que arde no sussurro inacabado
Ainda não se dissipou a névoa
Corações de crianças pairam sobre o rio
Pergunto:
Serás sempre assim
Quando se levantarem e forem embora?
Ou de outra maneira?
Uma taça de luz inclinada entre as plantas
Revela um fundo ainda desconhecido
Sabereis preservar o que em nós teve inicio?
Separareis sempre o bem do mal?

João Paulo II
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sexta-feira, 8 de julho de 2016



RETRATO AO SOL


O muro. A cal. O sol fustigando…
O teu rosto
Na luz
Girassol rodando
No muro a brancura da cal…

A tarde caindo
Pela planície adentro
Como alguém a levantar
Paredes aos olhos…

A luz. O teu rosto na cal.
O sol descendo as paredes
De luz
E eu estreitando-te no peito
No muro dos meus braços famintos… 

A. Alves Cardoso 

quinta-feira, 7 de julho de 2016



Cântico 



Uma onda branca
Desmaia em espuma na praia
Cantando a paz dos lírios brancos.
O mar, no seu infinito altar,
Entoa o seu canto inquieto,
Traz, no ventre, pérolas de sal
E asas de mil borboletas brancas.
Canta, mar imenso, a tua fúria!
Canta, mar profundo, a tua calma!
Canta, mar das gentes, canta!
Canta um verso novo a cada alma!

 Anabela Coelho




SÍSIFO

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.



Miguel Torga, Diário XIII


terça-feira, 5 de julho de 2016





DESCOBERTA

O relógio da Sé, na contraluz,
Marcava o destino e a hora da partida
Nas águas do Tejo reflectia-se a luz
E o velame dos barcos que estavam de saída…

Na margem os que ficavam e partiam
Davam ao céu mui altos gritos
Como pombas doloridas que se iam
Pelos vastos horizontes infinitos…

O rei ergueu as mãos por sobre o rosto
E todos se curvaram
E depois disse - «Ide! Deus seja convosco!»
E as naus ao mar se aventuraram…

E depois o mar abriu-se em ilhas
Em portos, enseadas e tormentos
Em coisas nunca vistas, maravilhas
Em dores agrestes e duros sofrimentos

E o relógio da Sé marcava as horas
Os sucessos, as partidas, as chegadas
Os naufrágios, as mortes, as demoras
E a dor das almas enlutadas

E foi assim que o mundo se alargou
Pelo sopro criador das velas lusas
Foi este o mundo que o Português criou
Sem o auxílio de deuses nem de musas…


A. Alves Cardoso 

Antonio Gedão - Cantado por Manuel Freire

segunda-feira, 4 de julho de 2016

















FRONTEIRAS

Os teus olhos,
Ainda adormecidos,
Amanhecem névoas e pássaros,
Por entre uma luz
Que rasga a pele do chão.
Ao longe, o mar azula-se
No céu que o acaricia.
Uma flor de frangipani
Suaviza o canto dos búzios
A nascer na solidão da areia.
O silêncio do sol
Cabe inteiro nas tuas mãos,
Que gritam poemas em surdina
E se desfolham pétala a pétala
Sobre o meu regaço de vidro.
     

Lurdes Breda

domingo, 3 de julho de 2016



ALIANÇA

És tu quem afeiçoa
o nó dos desencontros
e ciciosa alongas
o favo do consolo.
Quantas vezes o tempo
Não me teria morto
se o teu solar atento
em mim não fosse porto.
Que sombrias as dores,
que fel o sofrimento,
se não cantasse a força
da voz que alimenta,
Poesia: laço débil,
porém tão consistente:
único sol que ferve
nos mais frios momentos.

António Salvado
Retirado do livro “O Gosto de Escrever”






QUAL DE NÓS MORREU MAIS VEZES?

Qual de nós morreu mais vezes?

Seguramente tu,
que eu sempre estive morto…

Morri de vez
quando o sonho se esfacelou
naquela tarde de um outono antigo
quando a faca se enterrou
na carne tenra e pura do meu corpo
e atingiu a veia jugular da alma... 

Não ressuscitei ao terceiro dia
e jazo agora envolto no sudário da solidão
que envolve todos os meus ossos…

Morri, pois, apenas uma vez
e o óbito da minha alma
há de constar algures
nas repartições de Estado,
que as almas também morrem...

A. Alves Cardoso 

sábado, 2 de julho de 2016




O MENINO DA SUA MÃE

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
— Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.


Fernando Pessoa 


sexta-feira, 1 de julho de 2016
















Um mundo para além do meu

Porque….
… somos muito mais do que nós próprios
…somos parte do todo que nos rodeia
…somos percurso, o nosso.. mas também somos historia intemporal
…somos divino e parte da divindade, partícula do criador e energia em criação
…somos Amor e mesmo no sofrimento somos percurso para esse Amor
...somos 7 …somos cor
…somos 3 …somos índigo, azul e verde
…somos música…caos ou harmonia…presença ou ausência…
..somos luz …calor…riso e quietude , latência…gira, gira…somos amarelo e laranja e vermelho.
…somos água
…somos caos ,dor , escuro … terror e quietude, latência…permanência até dever estar
..e depois de novo centelha. ..somos Prana
ou somos parte desse mundo para além do meu
…somos violeta , somos Nirvana

Graça Amorim
















ALMA

Sim… sim… a alma
O éter voando no espaço
Naquele azul redondo
E faminto
Que ninguém consegue agarrar…

Para chegar até ela
Preciso de escadas
Preciso de subir mais alto
Por degraus de luz que não há…

Arrasto-me pelo chão
Pelo solo onde caminham os ossos
Deixando sulcos e marcas
Que o tempo vai apagando …

Eu queria ser alma!
Eu queria ser pássaro!
Ser o azul redondo
De tudo o que sonho e desejo!…

Queria ser o Outro
O que voa, o que sonha
O que ousa…

E fico espalmado
Como um paquiderme
Sem asas, sem rasgo…
A esvair-me de todo o azul possível
No asfalto da vida… 

A. Alves Cardoso