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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Chuva amada...bem-vinda!




Chuva Amada

Chuva… quanto de ti é poesia
Nos tons singelos do teu cantar
Código morse dos anjos solares
Como pode alguém não te amar

Fluído vaporoso em coração venturoso
Nuvem que se adensa na alma em fervor
Que retorna, por amor, em beijos molhados
Ao leito do mar, que em êxtase, se fez saudade

Sei que tens pressa irmã querida p`ra casa retornar
Abençoa-me, tão só, com a fragrância da terra baptizada
Cã visão do arco-íris flamante, veleiro de sonhos eternizados
E em meu rosto, pingentes, lágrimas de luz, d`amores ausentes


A.




A DEUS





Tenho umas coisas para te dizer
Que não vais gostar nada de ouvir.
Se vias que o barro era impróprio, adiavas
Se estavas sem força, descansavas mais cedo.
Deverias ter sido mais cauteloso.
E assim podes limpar as mãos à parede!
Homens destes podias muito bem dispensá-los.
A Alma? Para que querias a alma?
Tinhas sempre à mão os anjos, os serafins, os arcanjos
E em vez disso criaste estes pobres marmanjos
Que se arrastam, penosos, pelas frias lajes da vida
A sofrer como cães,
Mortais, vazios, mais céleres que vento sobre as searas.
Que no princípio era o Verbo!
Mas quem precisava do Verbo?
E agora aqui estamos como meninos perdidos no escuro
Cheios de angústias, de medos, à espera da morte...
Talvez um dia, quem sabe, viremos imortais como tu.
E já não precisaremos destes esqueletos
Que deambulam pela terra
Como órfãos perdidos do Éden.

A. Alves Cardoso

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Sereia




Tenho um saco de conchinhas
que apanhei  na minha praia
vou bordá-las com jeitinho
na barra da minha saia
Já tenho agulhas de vento,
fio de sol para bordar
pensando bem vou fazer
um vestidinho de mar
Enfeito as tranças de peixes
quase me sinto sereia
falta-me um colar de estrelas
e uns sapatinhos de areia.

Teresa Queirós Ferreira



segunda-feira, 21 de agosto de 2017

EPIFANIA





EPIFANIA

Por onde anda a frágil menina
A impercetível, a singular
A que seguia grave, em contramão
Levando na mão direita o sonho
E três malmequeres em botão?

Viram a cativa de lábio doce?
Que passava nas margens de um rio mudo
Perene olhar da harmonia a beber silêncios
Rasto de lenda, sem dizer nada
Também ela rio, gaivota azul
Calada, calada...

Não a chamem pelo seu nome
Quando atravessar o deserto
Quando nada acrescentar ao infinito
Procurem-na no sorriso
E no sol dos seus cabelos.
Vejam!
Chegada ao anfiteatro, vagarosa
Passeia a sua alta imaginação...
E a canção que vai com ela
Floresce os malmequeres em sua mão!


Anabela Coelho




Liberta



A mão que te curou, é a mesma que te baptizou
A que mil vezes destravou o trinco e te deixou entrar
A que acorria com bálsamos, pressurosa, à febre dos teus dias
A que acolheu e amou os frágeis passarinhos caídos dos teus ninhos
É a mesma mão, generosa e a sorrir que te acena a cada despedida
Sempre aberta para dar nunca para pedir, e que te incita a voar
Liberta,  a mão que te afagou com a essência que desconheces

Liberta, liberta-te, e voa... Aonde reencontres os pares da tua identidade

Liberta...


Nina




quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Meu amor, meu amor



Meu amor meu amor

meu corpo em movimento

minha voz à procura

do seu próprio lamento.


Meu limão de amargura meu punhal a escrever

nós parámos o tempo não sabemos morrer

e nascemos nascemos

do nosso entristecer.


Meu amor meu amor

meu nó e sofrimento

minha mó de ternura

minha nau de tormento


este mar não tem cura este céu não tem ar

nós parámos o vento não sabemos nadar

e morremos morremos

devagar  devagar.


José Carlos Ary dos Santos





domingo, 13 de agosto de 2017

Saudade














Que saudade
tenho de nascer.
Nostalgia
de esperar por um nome
como quem volta
à casa que nunca ninguém habitou.
Não precisas da vida, poeta.
Assim falava a avó.
Deus vive por nós, sentenciava.
E regressava às orações.
A casa voltava
ao ventre do silêncio
e dava vontade de nascer.
Que saudade
tenho de Deus.

Mia Couto

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Os capacitados por Deus




Os capacitados por Deus

O mar cósmico é o berço da alma
Dá-se, em fluxo e refluxo pausado
Em seu seio os que navegam à deriva
Flores tão belas, as preferidas de Deus
Batidas pelas ondas esquecem seu brilho
E pelo canto das sereias distorcem sua luz
Por vezes perdem o rumo
Aconchegam-se no palco fútil
Ilusória rede de sustentação
Onde a Palma do Amor, se retrai

Nina


Mensagem a um Desconhecido




Mensagem a um Desconhecido

Teu bom pensamento longínquo me emociona.
Tu, que apenas me leste,
acreditaste em mim, 
e me entendeste profundamente.

Isso me consola dos que me viram,
a quem mostrei toda a minha alma,
e continuaram ignorantes de tudo que sou,
como se nunca me tivessem encontrado.



Cecília Meireles


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Nascer a cada dia















Com um Anjo aprendi que podemos nascer, a cada novo dia
Que a velha frase "se eu soubesse o que sei hoje" tem serventia
Em "circa diem" o mesmo cenário renovar, e outra obra realizar
Naus transformadas,  viajantes sem milhas em mares circulares
Abraçar o tornado como a um cavalo alado e  deixar-se levar
Sentir o sabor do mar sem o definir como  doce, ou salgado
E as tempestadas, berços de junco em mão amorosa embalados
Em cada homem decalcar o amor, apenas com a tinta do olhar
Aos rostos mil vezes encontrados dizer, muito gosto em conhecer
Toques harmoniosos dos sinos celestes nas horas das trindades
Ao findar cada dia, a nau enfeita o cais com os seus tesouros
No raiar da aurora, zarpa segura a circun_navegar um novo dia

A.

6 de Março de 2012

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Salvador Sobral & Júlio Resende - Regret - Poema de Fernando Pessoa

DE COIMBRA A LUÍS DE CAMÕES



Olha, Luís, acorda do teu sono
Mete-te a caminho, cuidado com as botas
E vem vê-lo manso, já com dono,
Com água todo ano e com gaivotas...

Que musas cantarias hoje? Inês.
A que depois de morta foi rainha?
Está tudo tão mudado, Luís, não vês?!
Então vem ver! Levanta-te e caminha...

Já não há musas como dantes,
Daquelas fidelíssimas, devotas,
D`olhos de sonho, fieis, virgens, amantes.
Até o rio é outro! Com gaivotas.

Mas pode ser que também tu estejas mudado
E vendo as saudosas margens do Mondego,
Polvilhadas de casas e fábricas, fiques chateado
E não venhas cá tão cedo.

Mas se vieres, pode ser que encontres uma
Musa, divorciada até e mãe de filhos,
Que, em verso, vestiremos de azul e espuma,
Caminhando fresca e segura entre os junquilhos...

António Alves Cardoso


sábado, 5 de agosto de 2017

O que passa, ou não passa




Passam as correntes dos rios
Mas ficam ricos sedimentos que
Formam seu leito e orientação

Ou as marés nos mares
Que ao sabor da lua passam
E o eixo da terra, equilibram

Passam os ventos gélidos
Que amaciam os cumes
E renovam a agreste flora

Ou as brisas quentes
Tapetes voadores dos estames
Que vão florir adonde quer

Passam as águas do garimpo
Mas o bom minério
Fica no fundo da bateia

Passam os ilusórios enganos
As palavras decoradas
As sombras forjadas

Só não passam
As sendas de Deus em nós
E o que nos tocou o coração


Maria Adelina



No 1º aniversário da sua morte - Vander Lee - A Voz

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Pela Minha Mão




PELA MINHA MÃO










Se me pedisses para pintar o verão
Verias um sol em mãos douradas sobre as searas
E nos montes cordeiros brancos, soltos
Olharias o mar a elevar-se à distância
E um arado lavrando na espuma
Seria violácea a sua voz húmida
E mais plácidos os cânticos
E os apelos das sereias
Não faltaria o luar no abraço de silêncio
Velando a ventura noturna
No seu brocado de rebeldia
E as crianças no seu dom de serem leves
Saltando de sonho em sonho
Nos ladrilhos cintilantes, soletrando o dia
Haveria um calendário de sílabas brancas
A repetir-se em gestos ledos em agosto
Sempre em agosto
A dourar os cabelos
E as maçãs do rosto
Soltaria, no céu da manhã, todas as aves
E os seus cantos
E flocos de neve e de nuvens vestindo anjos
E tiaras de margaridas brancas, brancas
Agitando-se em sublime sentinela
Um arco-íris riscando o céu
A beber nos teus olhos um arroio de cores
E eu seria um barco
Um lenço de prata no convés
Talvez um rio, talvez uma fonte
Um fio de água orvalhando-te os pés…
Se me pedisses para pintar o verão
Acrescentava o que lhe falta
O olhar que trago por dentro
O pouco que tenho, o pouco que me resta
Desprenderia as flores do meu vestido
Das nossas bocas os risos
E os versos
E o verão, meu amor, era uma festa!

Anabela Coelho


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Sem que soubesses





Sem que soubesses

Falei de ti com as palavras mais limpas
Viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.

Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.

Fernando Assis Pacheco


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

As Águias




As águias não deviam ser aves
mas corações aduncos e com asas;
se olhares à flor dos campos e das casas
sentes o peito maior do que a amplidão:
se alguma coisa nasceu para voar
foi o teu coração.



Carlos de Oliveira


terça-feira, 1 de agosto de 2017

Dizeres...




“O poeta é como o Sol; o fogo que ele encerra é quem espalha a luz nessa amplidão sonora…Queimemo-nos a nós, iluminando a terra! Somos lava, e a lava é quem produz a aurora!”


Guerra Junqueiro