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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Recordar Ana Plácido



Recordar Ana Plácido é fazer a justa homenagem à mulher que amparou, inspirou, amou, o homem enaltecido, que foi Camilo Castelo Branco.
Ana foi o sopro de vida de Camilo enquanto ele a vida suportou. Foi também exímia na escrita, o seu legado anda por aí escondido no pó do esquecimento.


"Luz coada entre as sombras
Aconchegam minha saudade
Daquele que foi entranha
Das minhas entranhas
Cuja dor a minha fez nascer"


Ana Plácido

Recordar José Carlos Ary dos Santos





A cidade é um chão de palavras pisadas

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança  a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância  e a palavra medo.

A cidade é um saco  um pulmão que respira
pela palavra água  pela palavra brisa
A cidade é um poro  um corpo que transpira
pela palavra sangue  pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

                  José Carlos Ary dos Santos


Recordar Sophia de Mello Breyner Andresen




Apesar das Ruínas

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Recordar Florbela Espanca


Amigo

Poisa a tua cabeça dolorida
Tão cheia de quimeras, de ideal
Sobre o regaço brando e maternal
Da tua doce Irmã compadecida.

Hás de contar-me nessa voz tão q'rida
Tua dor infantil e irreal,
E eu, pra te consolar, direi o mal
Que à minha alma profunda fez a Vida.

E hás de adormecer nos meus joelhos...
E os meus dedos enrugados, velhos,
Hão de fazer-se leves e suaves...

Hão de poisar-se num fervor de crente,
Rosas brancas tombando docemente
Sobre o teu rosto, como penas d'aves...

Florbela Espanca


Recordar António Ramos Rosa




Sem dizer o fogo — vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso – duramente, são pedras e não são ervas.
O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que eu sei, já lá está, mas não estão os meus passos e os meus braços. Por isso caminho, caminho porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo, caminho e descubro o meu caminho.

Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.

Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim

E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe

Mas a noite existe
e a palavra sabe-o.


António Ramos Rosa

sábado, 29 de outubro de 2016

Recordar Manuel da Fonseca




O Sol do Mendigo

Olhai o vagabundo que nada tem
e leva o sol na algibeira!
Quando a noite vem
pendura o sol na beira dum valado
e dorme toda a noite à soalheira...

Pela manhã acorda tonto de luz
vai ao povoado e grita:
- Quem me roubou o sol que vai tão alto?
E uns senhores muito sérios rosnam:
- Que grande bebedeira!

E só à noite se cala o pobre.
Atira-se para o chão
dorme, dorme....

Manuel da Fonseca


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Recordar Vasco Graça Moura


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O suporte da Música

o suporte da música pode ser a relação
entre um homem e uma mulher, a pauta
dos seus gestos tocando-se, ou dos seus
olhares encontrando-se, ou das suas

vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,
ou dos seus obscuros sinais de entendimento,
crescendo como trepadeiras entre eles.
o suporte da música pode ser uma apetência

dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se
ramifica entre os timbres, os perfumes,
mas é também um ritmo interior, uma parcela
do cosmos, e eles sabem-no, perpassando

por uns frágeis momentos, concentrado
num ponto minúsculo, intensamente luminoso,
que a música, desvendando-se, desdobra,
entre conhecimento e cúmplice harmonia.


Vasco Graça Moura  



quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Entardeceres




Entardeceres

Gotas de sol vestem minha alma nua
despida de preceito, mentira, ilusão,
Palavras vãs
mas nunca vazias, do amor que se não diz
porém se faz, e da paixão pela essência da
cópia singela de cada sopro de Deus que
feito homem, se expande em pão e paz e
por tudo, ou tão só,  o que valha a pena


Maria Adelina


Amanheceres



Amanheceres

Dimensão feérica, palpitante, calor
do sol lilás reflectido na parede de cristal, ressoada
de gotículas de prata que se abrem, devagar, como uma
flor, que de seu cálice, emitem o mais belo som, tua voz
alta torre de silêncio que o cansaço não me deixa
escalar, despertei, porque a fonte não se esgota e
no mundo dos sonhos se estreita e enriquece na
tese que é Deus a experimentar o

Amor versus Vontade


MariaAdelina

terça-feira, 25 de outubro de 2016

AZUL




AZUL

Eu bebo o azul 
Como quem saboreia 
as chuvas de verão
e vou no voo sereno das gaivotas…
A minha humanidade
é igual à humanidade dos outros
Talvez mais sofrida
talvez mais aguda 
Mas somos todos irmãos
Somos todos gaivotas
E ondas 
E mar 
E sargaços
E dor 
E silêncio 
Somos todos silêncio 
E caminhamos 
Descalços
No fio da navalha
Em busca do azul… 


A. Alves Cardoso 




Poema da fascinação

Vou a Ti
Como quem vai,
Antes e depois da Morte,
Para onde lhe ordena o Destino...
Vou a Ti,
Seguindo a luz dos teus olhos,
Subindo por ela,
Caminhando pelo teu olhar
Como uma escadaria d’astros...
O teu vulto,
Lá em cima,
É um palácio branco, a atrair-me...
Quando chegarei,
Ó Eleito,
Diante de Ti?
Quando descerrarás
As tuas portas de luz,
Para receberes
Os lírios e as rosas odorantes
Que andei colhendo
Para te ofertar?
Não demores, não tardes,
Ó Eleito,
Que eu vou a Ti
Como quem vai,
Antes e depois da Morte,
Para onde lhe ordena o Destino...

Poema do regresso

Eleito, ó Eleito!
Era, então, aqui embaixo

Que estavas?..

Cecília Meireles



segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Saudades de ti...


Hoje, na chuva e no vento senti saudades de ti... 

De novo me atrevi a dançar à chuva
Com a força infinita que emanavas
Senti a alegria sem razão que te movia
Feita de risos e sonhos com seres ausentes
E armada só com o olhar, enfrentavas o mundo
Senti o arroubo da sensação duma liberdade plena
Quando esquecias as normas e nos campos te perdias
Senti o fascínio que sentias em decifrar a fala dos olhares
Pois percebias que a boca e os olhos não falam línguas iguais
Senti o amor total que sabias existir, qual tesouro a descobrir

Hoje, senti saudades de ti...

Maria Adelina



domingo, 23 de outubro de 2016




O que me prende é o que te prende:
largo horizonte de outros passados,
raízes fundas presas ao chão
e um mar tão largo.

Palavras soltas num vento agreste,
caminhos rudes determinados,
sombras e sonhos sem condição
e um céu tão vasto.

Meus passos breves não deixam rasto.
Teus passos fundos, fundos estão.
Mas entre o mar e o céu e os nossos passos,
a nossa humanidade é o mesmo laço
irmão.


Glória de Sant'Anna


sábado, 22 de outubro de 2016

Acorda-me




ACORDA-ME

Quero acordar devagarinho
como quem embala um menino
acorda-me, mansa pena,
desprende-te do meu céu,
alva de neve, branquinha,
anjo que me adormeceu.
Desvia o meu lençol de linho
perfumado a hortelã
acorda-me devagarinho
como quem embala um menino
estrelinha da manhã!

Anabela Coelho


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

20 de Outubro - Dia do Poeta





    


Janela da Alma










Acomodei-me num cantinho do tempo daqueles que são só da gente. O chá sempre presente na ansiada solidão tirei sortes entre os poetas. Folheava ao acaso sem ordem ou reparo ou sequer intenção…

 Neruda, Florbela, Machado, Torga, Sophia, Vinícius, Cecília, Tagore, Fina, Kalil, Natália...

Coincidência ou imaginação?...Estes e uns tantos mais, confabularam hoje em orquestrada conspiração, nas mais belas odes à expressão fundamental, aquela que o saber ancestral diz ser a janela da alma.
De par em par ofertei-vos o meu olhar que se estende nas páginas impressas do vosso e do meu sentir.

Gratidão infinita aos poetas de todos os tempos.


Maria Adelina





Ser Poeta é...


Dia do Poeta


Poesia?


Dia do Poeta - 20 de Outubro


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Livro de horas



Livro de horas

Aqui, diante de mim, 
Eu, pecador, me confesso 
De ser assim como sou. 
Me confesso o bom e o mau 
Que vão ao leme da nau 
Nesta deriva em que vou. 

Me confesso 
Possesso 
Das virtudes teologais, 
Que são três, 
E dos pecados mortais, 
Que são sete, 
Quando a terra não repete 
Que são mais. 

Me confesso 
O dono das minhas horas. 
O das facadas cegas e raivosas 
E o das ternuras lúcidas e mansas. 
E de ser de qualquer modo 
Andanças 
Do mesmo todo. 

Me confesso de ser charco 
E luar de charco, à mistura. 
De ser a corda do arco 
Que atira setas acima 
E abaixo da minha altura. 

Me confesso de ser tudo 
Que possa nascer e mim 
De ter raízes no chão 
Desta minha condição. 
Me confesso de Abel e de Caim. 

Me confesso de ser Homem 
De ser um anjo caído 
Do tal céu que Deus governa. 
De ser um monstro saído 
Do buraco mais fundo da caverna. 
Me confesso de ser eu 
Eu, tal e qual como vim 
Para dizer que sou eu 
Aqui, diante de mim! 


Miguel Torga



terça-feira, 18 de outubro de 2016

Eternidade



Eternidade

Tempos fecundos, plenos de graça
Aspiramos o aroma intenso da eternidade
Em taças transbordantes de sentires aleatórios
Do que pensamos ser, e do que é, sem a razão saber
Suprimem-se os dias, vive-se uma era em cada inspiração
Peneira-se o joio rasgam-se as mortalhas liberta-se o coração
E a eternidade acontece nos sulcos do arado da palavra que resgata
Nas tonalidades ambarinas de olhares desfeitos na poeira dos desertos
Anjo em mim…
Incólume…cadinho de fogo ígneo, passageiro da vida, na eterna_idade



Maria Adelina


No teu amor por mim




No teu amor por mim

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

Ruy Belo


domingo, 16 de outubro de 2016

Poema para Deus


Poema para Deus

Não te engano, nem me engano
Sou imagem reflectida da tua inquietude
Só, na força centrípeta que nos une
Traço horizontes que te motivem

Escorro da lembrança quando te conheci
As lágrimas sem fim dos ciclos de dor
Quiçá, cálice sagrado de cada vida em flor
Pérolas do rosário que desfias

Pergunto-me que te dei do que nada te devo
E quanto me deste do muito que prometes
Nesta simples equação encontrei-te de novo
Quando me disseste: és braço da minha libertação

Voltei a encontrar-te, lembras?
Naquela tarde distante em que te confrontei
Com as armas com que me equipaste
Moldei-as em fogo, delas fiz bordão de peregrinação

Recrio em tudo prece e oração
Em sentir de profunda compaixão
Para colmatar tua inquietude e solidão
Deus, meu companheiro de peregrinação


Maria Adelina