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sexta-feira, 29 de agosto de 2014



                                       ESPERA


        As camélias já floriram e tu não vieste.
        Entardeceste no tempo. Pousaste um passado, que era nosso, na memória dos dias, e não vieste. Silenciaste as palavras, os sonhos, a ternura. Viveste um tempo teu, sem laços, sem prisões. E envelheceste.

        Porquê tanta amargura?

        Encosto-me à vidraça e sonho. Chegam de volta os dias, a ternura, as manhãs claras.Tocam-me os teus dedos; prendem-me os teus braços; esmaga-me o teu corpo.E eu sou de novo a tua menina; sinto de novo a minha fragilidade. Sinto de novo a tua força; volto a ser pequenina ao pé de ti.Aconchego os sonhos na tua presença terna e arrebatadora.O teu colinho embala-me e traz-me tudo. Faz-me parar no tempo. Ser pequenina. Numa acalmia doce, inventada.
        As camélias envelheceram e tu não vieste.
        Entardeceste no tempo.

        Porquê tanto azedume?

        Deixo a vidraça. Solto a força do meu grito. Quero apagar os sonhos, desamar. Quero clarear a noite, a noite da tua ausência; mas não amanheço. Faltam-me os gestos de ternura, o alento, a força da tua presença.
        Encosto-me de novo à vidraça. Numa espera longa, sem um gesto.

        Porquê tanta distância?

        As camélias já caíram e tu não vieste.
        Envelheceste no tempo, e eu à espera. À espera de ser de novo a tua menina.


       
                               Maria Aida Araújo Duarte


                              

sexta-feira, 22 de agosto de 2014


                        O SANTINHO

     A cor esbatida e gasta aviva-lhe a memória. O meu santinho é uma estampa e nada mais. Tem dentro dele toda uma vida. Tem dentro dele a minha Mãe.
     Aprisionou-a dentro das linhas de uma esquadria que a deixa inerte. Aprisionou-a para a guardar. As quatro linhas da cercadura moldam-lhe o rosto; deixam-na branca, de um branco de anjo, de um branco, branco, que nem eu mesmo soube apagar. O branco fere, tira-lhe a vida e a esquadria não deixa espaço, nem uma aberta para a soltar. Fica amarrada à minha espera.
     Não tenho aqui, mas vou sonhar. Sonhar a vida. Trazer tesoura. Fazer magia para a soltar. A minha estampa é um santinho e eu vou cortá-lo, a toda a volta. Ficará outro, mesmo esbatido, ganhará vida, cancela aberta para a Mãe voltar... Amarras santas também amarram e eu quero-as soltas: quero uma aberta para ver a Mãe.
     E a tesoura deixa-me a estampa retalhadinha toda em redor do rosto branco, meio difuso, meio apagado, da Mãe que encerra toda uma vida fora do altar. É que o santinho tem lá um anjo. Fechou-se lá para descansar. Venha a tesoura! Venha a magia! Não dou este anjo, nem para o altar!
     O meu anjinho não é já anjo... E é menina!... Perdeu as asas. Não sai do sítio. As quatro linhas deixam-no preso. Preso a uma estampa que é de papel... Vou recortá-lo. Mesmo sem asas, ainda é menina e é minha Mãe... Vou libertá-lo, dar-lhe outras asas, dar-lhe um caixilho do seu tamanho, mesmo à medida deste meu gesto que tira os santos do seu altar!
     E o meu santinho, já esbatido, é mais pequeno, mas diz-me coisas de me embalar... 


                                      Maria Aida Araújo Duarte