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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Natal - Álvaro Lima




NATAL

Quando se acende a luz do verdadeiro Natal?
A luz do sorriso de uma criança
nos que dormem em lençóis, vincados, de relento,
quando acedemos essa luz da caridade e da mudança.
Quando os que passeiam na revolta,
cheguem á doçura da paz.
Os que suportam o calvário da dolência,
sintam o coração cheio de amor.
Quando aos que semeiam a ingratidão,
levamos a ternura de uma flor
e a semente onde não germina solidão.
E nas pegadas, sulcadas, de amargura,
levamos o vento, bom, da esperança.
E quando ao cansado velhinho,
que se perdeu dos anos e do caminho
o escutamos sem pressa, ao ritmo do seu coração
na certeza que o deixemos mais vivo
e mais leve na solidão.
Ah! Quando a palavra é um dom
e toma o caminho, sábio, das parábolas,
o Natal é paz, o Natal é amor!

Vestem-se de cor as cidades, as vilas e as aldeias.
Nos lares, respira-se o aroma do pinheiro
colorido com os tons da imaginação,
com a essência e a cor de cada alma.
Na lareira, o lume ilumina e aquece
a ceia farta, o espírito e as memórias.
As crianças exultam de alegria
com a chegada, esperada, do pai Natal.

O Natal é esperança renovada
que alimenta cada coração
uma suave mística sempre lembrada
no caminho de cada geração.

Álvaro Lima




Natal Divino - Miguel Torga





Natal Divino

Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.

O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar...
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar...

Miguel Torga


No cimo da árvore - Ana Homem de Albergaria



No cimo da árvore, há quem veja uma estrela, eu vejo uma cruz.
Uma cruz pesada, que de dor se inclina.
Por detrás da noite de insónias acesas, só vê fantasias quem não cegou de tristezas.
Que natal, que brilhos, que musica nas ruas... ?
Se, dentro de nós , há frio no peito ; há olhos molhados 
e as dores são só tuas?!


Ana Homem de Albergaria

Poema de Natal - Vinicios de Morais




Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:

Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:

Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinícius de Moraes


Cântico Branco

Já não sou capaz - Ana Homem de Albergaria





Tela: Ana Homem Albergaria










Já não sou capaz de escrever poemas de Natal.
Aguardo de novo a tua vinda Menino do Presépio.
Espero de novo pela Família Amor,
Que neste velho Tempo de corações frios se aconchegue
Na simplicidade de uma nova gruta,
Segundo abrigo,
Ultima esperança, do Salvador do Mundo!
Espero-te nesta luta diária, mas não inglória, contra o egoísmo,
Em nome da Humanidade que se quer reconstruir.
Espero-te no mesmo trilho, mas neste Belém de novos tempos,
Debaixo de um céu de justiça e num chão seguro para todos.
Espero-te reedificando-me, fortalecendo-me,
Amando-me, para te amar a ti e amar os outros.
Tenho de estar completa quando chegares!
Quero ser essa nova gruta, robusta mas transparente,
Onde todos te verão Renascer!

Poema : Ana Homem Albergaria



sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Olavo Bilac - Parabéns Poeta





Olavo Bilac

16 Dezembro 1865// 28 Dezembro 1918








Ouvir Estrelas

Ora ( direis ) ouvir estrelas!
Certo, perdeste o senso!
E eu vos direi, no entanto
Que, para ouví-las,
muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto

E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila.
E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas?
Que sentido tem o que dizem,
quando estão contigo? "
E eu vos direi:
"Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas



Olavo Bilac



segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

SONETO DE AMOR




Soneto de Amor

Ela era nova e no entanto
A morte veio em seu passinho leve 
E levou-a embrulhada no seu manto
O seu rosto florido, o seu rosto breve.

Talvez lá no assento etéreo onde subiu 
Se recorde do tempo de criança 
Do muito que amou, do que sorriu
Do que ficou em mágoa da lembrança. 

E se a morte, dizem, é passageira
Também eu, amor, quero morrer 
E ir ao teu encontro onde estiveres. 

Perto de ti serei o que quiseres 
Que viver sem ti é não viver 
Quero morrer vivendo à tua beira.   


A.  Alves Cardoso 



Tratado das Grandezas do Ínfimo




A poesia está guardada nas palavras – é tudo que
eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
Insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Manoel de Barros

As pessoas sensíveis




As pessoas sensíveis


As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas


O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa

Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão"

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem


Sophia de Mello Breyner Andresen




quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Ave Maria - Dia da MÃE - 8 de Dezembro

À Bela...



Flor Bela de Alma
 
Qual dos três o primeiro
Bela... como as flores
Alma... de tantos tons
Flor... de múltiplas cores
 
Se os nomes têm alma
Como muitos fazem crer
Os teus criaram a sina
Que deu sentido ao teu viver
 
Por charnecas de Sol raiadas
Em tempos de solidão
Acumulavas da Terra
A força da expressão
 
Com coragem, determinação
Geravas pelas palavras
Os sentires doutras mulheres
Que os costumes calavam
 
Mulher/Menina onde ecoa a paixão
Que foi fraca compensação
Da saudade sempre presente
Do mundo donde vieste
 
Nas centelhas da memória
Encontravas alguma paz
Quando em fogo libertavas
A tua essência aprisionada
 
“Eu quero amar, amar  perdidamente “
“Amar só por amar: Aqui ... além...”
 
Ou ainda
 
“É ter cá dentro um astro que flameja”
“É ter fome, é ter sede de Infinito!”
 
Mas quando o Sol da paixão esmorecia
E desse grão já não conseguias fazer pão
No balançar eterno das estrelas
Buscaste refúgio, e consolação
 
E da tua Alma agora serena, ouvimos o som:
 
"preciso tanto de ser embalada devagarinho... suavemente... como uma criança pequenina, sonhando de olhos fechados, num regaço carinhoso e quente!..."
 
 


 
Maria Adelina 
 



Florbela, para sempre...

Florbela Espanca - Parabéns Poeta





Florbela Espanca - 8 de Dezembro de 1894 // 8 de Dezembro de 1930

Ser Poeta


Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior 
Do que os homens! Morder como quem beija! 
É ser mendigo e dar como quem seja 
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! 

É ter de mil desejos o esplendor 
E não saber sequer que se deseja! 
É ter cá dentro um astro que flameja, 
É ter garras e asas de condor! 

É ter fome, é ter sede de Infinito! 
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... 
É condensar o mundo num só grito! 

E é amar-te, assim, perdidamente... 
É seres alma e sangue e vida em mim 
E dizê-lo cantando a toda gente! 



Florbela Espanca,
in "Charneca em Flor"




quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Ary dos Santos - Parabéns Poeta





José Carlos Ary dos Santos

7 de Dezembro 1937 // 18 Janeiro 1984



Quando um homem quiser


Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher



José Carlos Ary dos Santos

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016




Para o Pedro e Ana Sofia que celebram o seu dia de Natal. Desejo que nunca lhes falte o encantamento e o riso. Para todos os Polegarzinhos!





“A mão que embala o berço governa o mundo” Abraham Lincoln



SE EU FOSSE

Se eu fosse um espanta pardais no meio da seara
Um boneco de neve num jardim
Uma estátua, serena, numa praça
Ou um discreto e meigo arlequim.
Se eu fosse um anjo da guarda suspenso na parede
Uma boneca de trapos de longas tranças
Uma fada, um duende
Um palhaço alegre de todas as crianças.
Ah, se eu fosse o que me vai no pensamento
Uma simples caixa de música a tocar ternura
Jamais me queixaria das dores e das tristezas
E, nasceria todas as vezes em qualquer altura.

     
Anabela Coelho



Fernanda Botelho - Parabéns Poeta



Fernanda Botelho

1 de Dezembro de 1926 // 11 de Dezembro de 2007 

Amnésia


Posso pedir, em vão, a luz de mil estrelas:
apenas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.

Posso pedir, em vão, a melodia, a cor
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me prende e oprime).

E peço, em vão, uma palavra exacta,
uma fórmula sonora que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa alguma.

E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.



Fernanda Botelho