Google+ Followers

quarta-feira, 30 de novembro de 2016



Pedacinhos de Ti

Tudo me leva para o mar
Alvos novelos de lã, nuvens
Aquelas que teus olhos beijam
Assentes em aguarela azul        

Sinto nas mãos as algas
Alfombras de teus pés
No lilás que teima em florir
Na moldura da minha janela

O campo ondula no pico do meio-dia
Miríades de ondas em alto-mar
Nesta nau sem âncora ou lastro
Vogam, os pedacinhos de ti

Imito Neruda quando diz…
"Amo-te quando te amo, e quando 
não te amo, amo-te mais ainda…"



Maria de Jesus




Para sempre Pessoa - Fernando Pessoa - Biografia.

Homenagem na data da sua morte.




O meu olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E, de vez em quando, olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Fernando Pessoa - Alberto Caeiro



terça-feira, 29 de novembro de 2016



Tantas vezes vida, tantas vezes morte

Neste momento dou ao meu perfil 
a configuração de uma haste 
que, ao primeiro sopro do vento, 
adivinha um fogo posto nas palavras.
Conheço o rigor das noites 
e o alarmante traço 
da obsessão pelas trevas 
que me cingem os braços
quando o reflexo do luar
incide nas manchas do meu rosto 
e com os mais antigos olhos 
posso rever o passado: 
tantas vezes vida, tantas vezes morte.

Graça Pires

De Uma claridade que cega, 2015


Ainda é cedo, sabes?

As pedras são maiores que as nossas mãos.
No ar pesa a espessura da tristeza.
As uvas estão verdes.
Não é tempo do vinho.

O grão já é farinha, mas
o fermento dorme.
Não é tempo do pão.

Pequenos os seios das mulheres.
Não é tempo do leite.

As abelhas zumbem, mas
a flor do rosmaninho é só botão.
Não é tempo do mel.

Amargos os lábios dos homens.
Não é tempo do beijo.

Ainda é cedo, sabes?
Esperemos de mãos dadas,
sentados no caixote dos brinquedos,
bebendo os versos que havemos de escrever.
Verás que amadurece o tempo da saudade.

Licínia Quitério
In: Memória, Silêncio e Água. Poética

sábado, 26 de novembro de 2016


Composição

De que se compõe um poema
Senão da migração dos sentires
Qual andorinha perdida
Na cruz da rosa-dos-ventos

De onde vem para onde vai
É um mistério dos tempos

Tem o sopro quente
Das lembranças doces
De sorrisos inesperados
De silêncios falados

Que diz ou não diz
Tem gosto ou aroma

Ao sabor do chá confidente
A cheiro de maresia ausente
Tem forma de gente
Alma, timbre, do meu canto


Maria de Jesus




sexta-feira, 25 de novembro de 2016



HOMEM

Partículas de Deus, eis o que somos,
Árvores primitivas, divindades
A mão divina segurando os gomos
De um Adão de todas as idades.
Tudo o que quisermos ser, é o que somos,
Apesar das nossas vis humanidades
E o que existe já está nos tomos
Das nossas mesquinhas feiras de vaidades.
Somos deuses e deusas, quase eternos,
Feitos de pó e sargaço, feitos de lama
E devorados por dentro pela chama!
E nem a clara frialdade dos invernos
Apaga a pouca luz que recebemos
Ou esconde a insatisfação do que não temos...
                           
 A. Alves Cardoso

Eça de Queirós - Parabéns Poeta





José Maria de Eça de  Queirós

25 de Novembro de 1845 // 16 de Agosto de 1900


Senhor-Povo


Eu, que vivi e observei
no foco irradiante da moderna concepção
das reivindicações sociais,
testemunho, de visu,
que os mais preclaros apóstolos
da igualdade não gostavam da multidão,
porquê lhes cheirava a gente;
não se aproximavam dos miseráveis,
porque receavam o seu contacto,
que lhes sujava o brilho do fato
e lhes transmitia o micróbio patogénico
de várias moléstias infecciosas,
e confessavam, desdenhosamente, o seu asco
pela porcaria revoltante do Senhor-Povo,
a que enalteciam e lisonjeavam
nas frases campanudas dos seus discursos,
ou dos seus escritos demagógicos e igualitários. ” 


Eça de Queirós


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Pedra filosofal (António Gedeão) cantada por Manuel Freire

António Gedeão - Parabéns Poeta




António Gedeão

24 de Novembro de 1906 // 19 de Fevereiro de 1997






Roda de Mar

Os dias estremecem de saudade
Debruçados em varanda de espuma
E o espírito liberta-se, voga sereno
Mestre-escola da senda da vida

O som eleva-se ao bramido do vento
Enche-se de luz, fogo, melodia
Na candura com que te embala
Minha voz é cântico, carícia, entrega

Na roda de mar que nos aconchega
Trono de paredes de rocha nua
Mergulho na maré de teus sonhos
E sou alga, água, jardim ou lua...

Maria de Jesus



quarta-feira, 23 de novembro de 2016





Imperdoável

Imperdoável é o que não vivi,
Imperdoável é o que esqueci,
Imperdoável é desistir de lutar,
Imperdoável é não perdoar,

Tive dois reis na mão e não apostei,
Vi catedrais no céu e não as visitei,
Vi carroceis no mar mas não mergulhei,
Imperdoável é o que abandonei,

Vejo-me cego e confuso nesta cama a latejar
O que seria de mim sem o meu sentido de humor
Praticamente mudo sinto a máquina a bater
É o rugido infernal destas veias a ferver

Imperdoável é dispensar a razão,
Imperdoável é pisar quem está no chão,
Imperdoável é esquecer quem bem nos quer,
Imperdoável é não sobreviver.

Jorge Palma


Herberto Helder - Parabéns Poeta



Herberto Helder

23 de Novembro de 1930 // 23 de Março de 2015


Sobre um Poema


Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder

terça-feira, 22 de novembro de 2016



Para meu coração basta teu peito
para tua liberdade bastam-te as asas
Desde minha boca chegará até o céu
o que estava dormindo sobre tua alma

E em ti a ilusão de cada dia
Chega como o sereno às corolas
Escavas o horizonte com tua ausência
Eternamente em fuga como a onda

Disse-te que cantavas no vento
como os pinheiros e como as hastes
Como eles a tua taciturna altura
e entristeces prontamente, como uma viagem

Acolhes como um velho caminho
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas
Eu despertei e às vezes emigram e fogem
os pássaros que dormiam em tua alma



Pablo Neruda






Sou um Louco sou Poeta

Perfumaste minha boca
Com o batom dos teus lábios
Embriagaste meu ego
Com teus sentimentos sábios

vou falar como os profetas
Quero asas para voar
Quero ir ao imaginário
Quero tempo p´ra pensar

É no outono que as árvores
Se despem do manto verde
E com sua irreverencia
Há algo que sempre se perde

Sou um loco sou poeta
Que busco minha magia
Sou talvez um ser humano
Que partilha poesia

Com minha voz diluída
Com minha dor palpitante
Sou uma força perdida
Num gesto irrelevante


Carlos Arzileiro Pereira

No dia dedicado aos Músicos - Carlos Paredes

segunda-feira, 21 de novembro de 2016




Velando

Beija os meus sonhos a eles tão só
Deles farei borboletas rodopiantes
Ébrias de alegria moldes de encanto

Abraça-me com olhos de espanto
Como quando rezas ao infinito
E teus olhos derramam estrelas

Toca-me os cabelos só com a intenção
Da harpa que tange co silvo do vento
Melodias, em pautas nunca escritas

Sussurra teu canto no ar que inspiro
Estrofes de seda a esvoaçar dizeres
Que o mar, os trará a meu cais

Maria de Jesus


domingo, 20 de novembro de 2016





Pai Amigo


À minha mãe devo tudo
o quanto ela me deu
isso nunca esquecerei
ainda mais devo a meu pai
passou tantos sacrifícios
tantos, tantos que nem sei

Sinto tanto ao recordar
o que passou p'ra me educar
sem condições para tal
trabalhava noite e dia
de tudo ele fazia
era um homem sem igual

Pai amigo se me ouves
sabes bem quanto te adoro
pai amigo ídolo meu
ainda hoje por ti choro

Quero continuar a história
da vida que me ensinaste
que irei sempre recordar
nem que eu viva cem anos
podes ficar descansado
nunca te irei magoar

No além vejo a penumbra
de tudo o que me ensinaste
que guardo com amor
querido pai tu estás comigo
um dia vou ter contigo
para repartir nossa dor

Carlos Arzileiro


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

As palavras de Saramago...embaladas em música

José Saramago - Parabéns Poeta


José Saramago  16 de Novembro de 1922 / / 18 de Junho de 2010





Aprendamos, Amor

Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.

Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis" 


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

domingo, 13 de novembro de 2016

Reconhecimento

 



Existe um barco chamado gratidão
Que navega o rio paralelo à pressa
Que embebe os dias (ou a extinção) destes tempos
Nele florescem os rebentos dos actos
Terra e adubo dos nossos passos
O ar a árvore a nuvem, reconhecer
Quando somos abençoados
Com a calidez da lã que nos abriga
Lembramos do seu crescer?
Do corpo que lhe dá vida, mantida
Pela terra que gera o pasto que gera a vida
Por mãos calosas dobada e tecida
E que em nós se abre em cor, calor, obra-prima
Devemos pensar que é nossa?
Que a cegueira dos sentidos desorientados
Não apaguem a luz dos sentires primordiais
Entrega
Generosidade

Reconhecimento
Gratidão
 
 
Maria Adelina
 
 
 


sábado, 12 de novembro de 2016


"Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas."

Federico García Lorca




sexta-feira, 11 de novembro de 2016








Plenitude

Hoje lembrei de um tempo distante, não dum qualquer,
mas daquele presente numa roda de bem-querer
onde as nossas vozes dançavam além de nós
inebriadas, na música de fundo dos olhares

Lembrei como doeu quando ciúme ou incompreensão
estremeceram os átomos do teu ser
Pois se todo o amor em mim se ampliou no amor por ti,
Como um espectro de arco-íris onde tudo ganha cor.

Bênção que infundiu em mim a plenitude
onde o peito é espaço aberto que acolhe toda a dor do mundo,
a molda em asas de pomba, e campos de girassóis
que ainda não perderam, do sol, o sentido.

Assim é o amor que geraste em mim


Maria de Jesus







MEU AMOR

Meu amor, são nossas todas as noites e estações  
É nosso o amor que nos embala na vertigem dos dias
Os beijos, as carícias, as emoções, as palavras eternas
E fugidias, é nosso o vento, o sol, o mar, os rios, 
O que antes não via,
É nosso o mistério de não haver mistério 
Em coisa nenhuma, e beleza, muita, em cada dia… 

São nossas as manhãs de verão e as tardes de inverno
A chuva, o frio e o sol dourando as folhas e 
As árvores, o jardim repleto de folhas castanhas, amarelas,
E nunca, meu amor, nenhum outono me pareceu assim
Tão morno, tão sublime, e as árvores tão belas!

E cada folha caída é um beijo a menos que demos, 
Mais perto a despedida, e cada lágrima derramada 
É o Outono onde amanhecemos, a eterna madrugada…

Estes versos, quem sabe quem os lerá?
Mas o nosso amor, esse, meu amor
Renova-se em cada estação,
É outono, é inverno, é verão,
É primavera que não acabará!...

Cecília Pires 

Leonard Cohen ...Até ao fim do amor... Descanse em Paz

quinta-feira, 10 de novembro de 2016





DESCONCERTO

Sentado às portas de mundo
voo nas asas do tempo!...
Em cada canto sinto as chuvas
rijas de indiferença, que gelam
no rosto de crianças famintas
a implorar uma réstia de humanidade
ao mundo cobarde e mesquinho,
que oferece as mãos cheias de nada!...

Respira-se o aroma da juventude,
reivindicando ao mundo
o direito e a dignidade de ser gente.
A cada pegada, seca-se-lhe a esperança
com gritos de desilusão!...
Quase elegem a corrupção como sua mensageira,
ervas daninhas que contaminam as
mentes sonhadoras.

Nas teias do desalento,
sopram ventos maléficos
que cruzam olhares sem brilho;
na melancolia, mordem-se com
beijos ávidos de fel e mágoa.
Instintos que vertem prazeres
disfarçados que enfadam.

Famílias que desabam ruidosamente pela raiz,
entes que semeiam crimes hediondos,
que arrepiam, nos sufocam e nos interrogam.

No desconcerto de horizontes vazios
encontram-se, na estrada do silêncio,
idosos, almas vestidas de luto,
gente de mãos trémulas,
mestres de experiência e sabedoria,
que vivem como fardos!...

No esquecimento, brotam labaredas
de sofrimento que explodem como vulcões
Eis o desconcerto!


Álvaro Lima


DESENGANO

Um rio nos divide e no entanto 
Há barcos e marés, há ventos favoráveis. 
Que importa o medo, a angústia, o canto 
Das sereias, as dúvidas insanáveis? 

O rio corre no seu leito 
A caminho do oceano 
E nós seguimos pelo caminho estreito 
Do nosso desengano…


A. Alves Cardoso