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terça-feira, 29 de novembro de 2016



Tantas vezes vida, tantas vezes morte

Neste momento dou ao meu perfil 
a configuração de uma haste 
que, ao primeiro sopro do vento, 
adivinha um fogo posto nas palavras.
Conheço o rigor das noites 
e o alarmante traço 
da obsessão pelas trevas 
que me cingem os braços
quando o reflexo do luar
incide nas manchas do meu rosto 
e com os mais antigos olhos 
posso rever o passado: 
tantas vezes vida, tantas vezes morte.

Graça Pires

De Uma claridade que cega, 2015


Ainda é cedo, sabes?

As pedras são maiores que as nossas mãos.
No ar pesa a espessura da tristeza.
As uvas estão verdes.
Não é tempo do vinho.

O grão já é farinha, mas
o fermento dorme.
Não é tempo do pão.

Pequenos os seios das mulheres.
Não é tempo do leite.

As abelhas zumbem, mas
a flor do rosmaninho é só botão.
Não é tempo do mel.

Amargos os lábios dos homens.
Não é tempo do beijo.

Ainda é cedo, sabes?
Esperemos de mãos dadas,
sentados no caixote dos brinquedos,
bebendo os versos que havemos de escrever.
Verás que amadurece o tempo da saudade.

Licínia Quitério
In: Memória, Silêncio e Água. Poética

sexta-feira, 25 de novembro de 2016



HOMEM

Partículas de Deus, eis o que somos,
Árvores primitivas, divindades
A mão divina segurando os gomos
De um Adão de todas as idades.
Tudo o que quisermos ser, é o que somos,
Apesar das nossas vis humanidades
E o que existe já está nos tomos
Das nossas mesquinhas feiras de vaidades.
Somos deuses e deusas, quase eternos,
Feitos de pó e sargaço, feitos de lama
E devorados por dentro pela chama!
E nem a clara frialdade dos invernos
Apaga a pouca luz que recebemos
Ou esconde a insatisfação do que não temos...
                           
 A. Alves Cardoso

quarta-feira, 23 de novembro de 2016





Imperdoável

Imperdoável é o que não vivi,
Imperdoável é o que esqueci,
Imperdoável é desistir de lutar,
Imperdoável é não perdoar,

Tive dois reis na mão e não apostei,
Vi catedrais no céu e não as visitei,
Vi carroceis no mar mas não mergulhei,
Imperdoável é o que abandonei,

Vejo-me cego e confuso nesta cama a latejar
O que seria de mim sem o meu sentido de humor
Praticamente mudo sinto a máquina a bater
É o rugido infernal destas veias a ferver

Imperdoável é dispensar a razão,
Imperdoável é pisar quem está no chão,
Imperdoável é esquecer quem bem nos quer,
Imperdoável é não sobreviver.

Jorge Palma


Herberto Helder - Parabéns Poeta



Herberto Helder

23 de Novembro de 1930 // 23 de Março de 2015


Sobre um Poema


Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder

terça-feira, 22 de novembro de 2016



Para meu coração basta teu peito
para tua liberdade bastam-te as asas
Desde minha boca chegará até o céu
o que estava dormindo sobre tua alma

E em ti a ilusão de cada dia
Chega como o sereno às corolas
Escavas o horizonte com tua ausência
Eternamente em fuga como a onda

Disse-te que cantavas no vento
como os pinheiros e como as hastes
Como eles a tua taciturna altura
e entristeces prontamente, como uma viagem

Acolhes como um velho caminho
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas
Eu despertei e às vezes emigram e fogem
os pássaros que dormiam em tua alma



Pablo Neruda






Sou um Louco sou Poeta

Perfumaste minha boca
Com o batom dos teus lábios
Embriagaste meu ego
Com teus sentimentos sábios

vou falar como os profetas
Quero asas para voar
Quero ir ao imaginário
Quero tempo p´ra pensar

É no outono que as árvores
Se despem do manto verde
E com sua irreverencia
Há algo que sempre se perde

Sou um loco sou poeta
Que busco minha magia
Sou talvez um ser humano
Que partilha poesia

Com minha voz diluída
Com minha dor palpitante
Sou uma força perdida
Num gesto irrelevante


Carlos Arzileiro Pereira

No dia dedicado aos Músicos - Carlos Paredes

domingo, 20 de novembro de 2016





Pai Amigo


À minha mãe devo tudo
o quanto ela me deu
isso nunca esquecerei
ainda mais devo a meu pai
passou tantos sacrifícios
tantos, tantos que nem sei

Sinto tanto ao recordar
o que passou p'ra me educar
sem condições para tal
trabalhava noite e dia
de tudo ele fazia
era um homem sem igual

Pai amigo se me ouves
sabes bem quanto te adoro
pai amigo ídolo meu
ainda hoje por ti choro

Quero continuar a história
da vida que me ensinaste
que irei sempre recordar
nem que eu viva cem anos
podes ficar descansado
nunca te irei magoar

No além vejo a penumbra
de tudo o que me ensinaste
que guardo com amor
querido pai tu estás comigo
um dia vou ter contigo
para repartir nossa dor

Carlos Arzileiro


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

As palavras de Saramago...embaladas em música

José Saramago - Parabéns Poeta


José Saramago  16 de Novembro de 1922 / / 18 de Junho de 2010





Aprendamos, Amor

Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.

Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis" 


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

domingo, 13 de novembro de 2016

Reconhecimento

 



Existe um barco chamado gratidão
Que navega o rio paralelo à pressa
Que embebe os dias (ou a extinção) destes tempos
Nele florescem os rebentos dos actos
Terra e adubo dos nossos passos
O ar a árvore a nuvem, reconhecer
Quando somos abençoados
Com a calidez da lã que nos abriga
Lembramos do seu crescer?
Do corpo que lhe dá vida, mantida
Pela terra que gera o pasto que gera a vida
Por mãos calosas dobada e tecida
E que em nós se abre em cor, calor, obra-prima
Devemos pensar que é nossa?
Que a cegueira dos sentidos desorientados
Não apaguem a luz dos sentires primordiais
Entrega
Generosidade

Reconhecimento
Gratidão
 
 
Maria Adelina
 
 
 


sábado, 12 de novembro de 2016


"Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas."

Federico García Lorca




sexta-feira, 11 de novembro de 2016





MEU AMOR

Meu amor, são nossas todas as noites e estações  
É nosso o amor que nos embala na vertigem dos dias
Os beijos, as carícias, as emoções, as palavras eternas
E fugidias, é nosso o vento, o sol, o mar, os rios, 
O que antes não via,
É nosso o mistério de não haver mistério 
Em coisa nenhuma, e beleza, muita, em cada dia… 

São nossas as manhãs de verão e as tardes de inverno
A chuva, o frio e o sol dourando as folhas e 
As árvores, o jardim repleto de folhas castanhas, amarelas,
E nunca, meu amor, nenhum outono me pareceu assim
Tão morno, tão sublime, e as árvores tão belas!

E cada folha caída é um beijo a menos que demos, 
Mais perto a despedida, e cada lágrima derramada 
É o Outono onde amanhecemos, a eterna madrugada…

Estes versos, quem sabe quem os lerá?
Mas o nosso amor, esse, meu amor
Renova-se em cada estação,
É outono, é inverno, é verão,
É primavera que não acabará!...

Cecília Pires 

Leonard Cohen ...Até ao fim do amor... Descanse em Paz

quinta-feira, 10 de novembro de 2016





DESCONCERTO

Sentado às portas de mundo
voo nas asas do tempo!...
Em cada canto sinto as chuvas
rijas de indiferença, que gelam
no rosto de crianças famintas
a implorar uma réstia de humanidade
ao mundo cobarde e mesquinho,
que oferece as mãos cheias de nada!...

Respira-se o aroma da juventude,
reivindicando ao mundo
o direito e a dignidade de ser gente.
A cada pegada, seca-se-lhe a esperança
com gritos de desilusão!...
Quase elegem a corrupção como sua mensageira,
ervas daninhas que contaminam as
mentes sonhadoras.

Nas teias do desalento,
sopram ventos maléficos
que cruzam olhares sem brilho;
na melancolia, mordem-se com
beijos ávidos de fel e mágoa.
Instintos que vertem prazeres
disfarçados que enfadam.

Famílias que desabam ruidosamente pela raiz,
entes que semeiam crimes hediondos,
que arrepiam, nos sufocam e nos interrogam.

No desconcerto de horizontes vazios
encontram-se, na estrada do silêncio,
idosos, almas vestidas de luto,
gente de mãos trémulas,
mestres de experiência e sabedoria,
que vivem como fardos!...

No esquecimento, brotam labaredas
de sofrimento que explodem como vulcões
Eis o desconcerto!


Álvaro Lima


DESENGANO

Um rio nos divide e no entanto 
Há barcos e marés, há ventos favoráveis. 
Que importa o medo, a angústia, o canto 
Das sereias, as dúvidas insanáveis? 

O rio corre no seu leito 
A caminho do oceano 
E nós seguimos pelo caminho estreito 
Do nosso desengano…


A. Alves Cardoso 



terça-feira, 8 de novembro de 2016




Aceito que o olhar teça e desteça
o contraste dos dias num bailado
de gestos que se desdobram
e prolongam para além da pele.
Quero-me no centro do espaço
onde tudo começa e acaba,
onde me uno e desagrego,
onde me deixo habitar
por uma quietude imensa.
Desvinculo-me de todos os enredos
para que a osmose das trevas e da luz
alcance o resgate do corpo
que se retalha roçando o chão
e se dissipa em pleno voo.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015


segunda-feira, 7 de novembro de 2016





RETRATO

Chegou leve no seu vestido de seda
Desceu vagarosa ao quarto fundo
Viu nas sombras o tamanho do seu corpo
E chorou toda a vida num segundo.

Deambulou no seu longo vestido azul
Com a tiara de pérolas hesitantes
Os seus olhos marinhos pousam na alma
E voltou a chorar o mesmo instante.

Saiu no seu vestido alegre de princesa
Com gestos de quem vem semeando rosas
No peito descoberto um vento exíguo
Na alma as dores mais vivas, dolorosas.

Bebeu das suas veias toda a cicuta
Escreveu o silêncio na pauta certa
Cantou martírios, cantou tristezas
Construiu o vazio em praia incerta.


Anabela Coelho


Parabéns Poeta


Cecília Meireles nasceu a 7 de Novembro de 1901 no Brasil


domingo, 6 de novembro de 2016

Sophia de Mello Breyner Andresen - Parabéns Poeta




6 de Novembro 1919 // 2 de Julho 2004






A chegada do Amor

O amor chegou, e desembarcou no cais, 
onde ninguém o esperava, fazendo 
a cidade inteira estremecer, como se 
o amor a tocasse.

Mas alguém o viu sair 
do barco, e levou-o para a fila 
da alfândega, onde lhe perguntaram: "Donde 
vem? Que traz consigo? Mostre 
o passaporte." O amor não percebeu 
o que lhe pediam; pôs o arco sobre 
a mesa, e juntou-lhe as flechas.

“Tudo apreendido: não queremos agressões 
nesta cidade; proibidas as armas brancas.” E 
o amor, sem passaporte, ficou no cais, 
por entre sacos de lixo e vagabundos 
sem nada para fazer.

E à noite, quando a cidade 
adormece, todos perguntam 
quando chega o amor.


Nuno Júdice 


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Jorge de Sena - Parabéns Poeta


Jorge de Sena - 2 de Novembro 1919 / 4 de Junho 1978


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“Passado o mar, passado o mundo, em longes praias,
de areia e ténues vagas, como esta
em que haverá de nossos passos a memória
embora soterrada pela areia nova,
e em que sobre as muralhas quanta sombra
na pedra carcomida guarda que passámos,
em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda recordas esta, ó meu amigo? “

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Recordemos alguns dos nossos poetas que se tornaram imortais


Recordar Fernando Pessoa




Horizonte

O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa ---
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte ---
Os beijos merecidos da Verdade.

Fernando Pessoa