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domingo, 30 de novembro de 2014

Um apontamento de António Cardoso Pinto sobre Fernando Pessoa

.. na POESIA não era só ele ...
Ele era também Álvaro de Campos e Alberto Caeiro e Ricardo Reis
e era-os profundamente, como só ele sabia ser
na poesia como na vida
na vida como na arte.

Tudo nele era inesperado
desde a sua vida, até aos seus poemas, até à sua morte.
Inesperadamente,
como se se anunciasse um livro ou uma nova corrente literária por ele
idealizada e vitalizada,
correu em Lisboa a notícia da sua morte :
era um sábado, esse 30 de Novembro de 1935
Ele dizia:
O meu sentido interior predomina de tal modo sobre os meus cinco sentidos
que vejo coisas nesta vida - acredito-o - de uma forma diferente dos outros homens.
Há para mim - houve - toda uma riqueza de significações em coisas tão ridículas como a chave de uma porta, um prego na parede, os bigodes de um gato.
Há para mim toda a plenitude de sugestões espirituais numa galinha que atravessa a rua com os seus pintainhos.
Há para mim todo um significado mais profundo do que os próprios receios humanos no cheiro de sândalo, em latas velhas num monte de lixo,
numa caixa de fósforos deixada numa valeta, em dois papéis sujos que
num dia de vento esvoaçam e se perseguem pela rua abaixo.
Porque a poesia é espanto, admiração ... *
O que dele disseram :

"Era um senhor suavemente simpático, muito bem vestido que levava
escondido no lábio superior um sorriso discretamente irónico.
A calvície, os olhos gastos, esse seu jeito de estar sentado com as mãos
sobre os joelhos, essa sua voz velada, davam-lhe um ar estrangeiro,
distante no tempo e no espaço." *
» Jorge de Sena «

"Aprendi o suficiente português para poder ler Pessoa directamente." *
» Samuel Beckett «

"O leitor de Pessoa jamais poderá entender o verdadeiro alcance da sua
obra se se limita, como é geralmente o caso, a considerar cada heterónimo
como um todo. Só a 'mise-en-scène espiritual exacta', que Mallarmé
valorava mais do que qualquer outra, lhe permitirá orquestrar as vozes
dispersas das diferentes personagens." *
» Maria Teresa Rita Lopes «

"Neste homem havia tal lucidez que só é possível imaginá-lo consciente do
que estava escrevendo: e é de supor que não o estaria menos numa das
Odes impecáveis de Ricardo Reis do que num poema aparentemente
espontâneo de Álvaro de Campos. Se há, de facto, um drama do homem
na poesia de Pessoa, é o drama da lucidez implacável." *
» Adolfo Casais Monteiro «
* * *
... sentir tudo e de todas as maneiras.
sentir tudo excessivamente ....

... Tudo vale a pena
se a alma não é pequena ...

... Fui tudo, nada vale a pena ...

... Já sobre o meu vazio coração
desceu a inconsciência abençoada
de nem querer uma ilusão ...

... Sou um navio que chegou a um porto
e cujo movimento é ali estar ...

... A poesia é espanto,
admiração ...

... Quebra-te, coração ... *
* * *

* Disse-nos Adeus há 79 anos * A sua Estrela brilha ! *