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quinta-feira, 12 de abril de 2018

Pátria Triste



PÁTRIA TRISTE  

Quase não oiço, mas sinto envolver-me um aterrador
Coro de bocejos da Pátria triste, sem ânimo
Nem força, a cair no marasmo e letargia.
Geme de miséria. Ergue-se a prece e a blasfémia.
É assustador!

Depois de tão demorada dança e festança,
Com os pés feridos de tão espinhosos caminhos,
Quase já não sustem o bordão...
Roto está o alforje... pouco é o pão.
Próximos, espreitam os abutres
À espera de sua morte, do seu morrer.
É de tremer!

Que venham depressa os castigos
Para esses pérfidos malfazejos
Responsáveis por tal padecer.
Quem nos pode valer?

Portugal terá de regressar ao normal.
Um País com pouca riqueza não pode viver,
Em contínuo festival e excessos de uns tantos,
Em banquetes e orgias, no captar de votos,
Porque o Estado não pode,
Nem deve, a tudo prover!
É fácil de perceber!

Se democracia séria for
Imporá, além de justiça, labor
Sem explorado nem explorador.
Para que vingue o reino do Amor!

Entretanto, agora o povo brada e blasfema
Pouco querendo saber do tempo passado,
Preocupado com o hoje, com o agora
E aterrado com o que será o amanhã,
Porque a miséria não se vai embora…
Deverá ir em boa-hora!

Bem se dispensaria tão estranha, arrasante
E mundanária fera, que não se queria,
E de que se não estava à espera!

Trilhaste perigosos caminhos
De fantasias e de trevas,
Portugal - e Mundo!
Bateste no fundo!

Eis o despertar trágico
E implacável dum sonho irreal.
Tudo o que parecia ser se desfez,
Até os pardais andam tristes…
São cada vez menos as migalhas.
Vamos enfrentar novas batalhas!

Só te enfureces com os de hoje?
Esqueces os outros? Não lhes ralhas,
Nem amaldiçoas?
A esses tudo perdoas?

Mundo igualmente cheio de tanto mal,
Ética deitada ao lixo,
Em nome do progresso e da democracia.
Irra. Quem tal diria…

Envolve-me o vento numa queixa
Que lança ao Grande Juíz:
- Que ignota maldição foi lançada ao meu País?

Sofre o povo gente de fibra e de raça
Dor dantesca imerecida, uma tamanha desdita
Provocada por quem não ouve a grita.
O povo já não cala agora seu orgulho ferido
Nem a dor e revolta que acumula no peito.
Olha para trás e vê seus sonhos
Boiarem num mar de saudade e desesperança.
Pelos vales ressoam ecos de plangência
De tantas lágrimas no silêncio choradas.
Sonho de terror! Porque não de Fadas?

Vamos agora, tu, eu e milhões
Iniciar implacável caça aos ladrões.

Desperta. Terminou a farsa, o festival.
Levanta-te, ergue-te, caminha povo;
És tu quem terá de reconstruir Portugal!


 João Coelho dos Santos




domingo, 24 de dezembro de 2017

Natal de Quem? - Semana D´Ele - João Coelho dos Santos


NATAL DE QUEM?


Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau,
Do perú, das rabanadas.

-- Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!

- Está bem, eu sei!

- E as garrafas de vinho?

- Já vão a caminho!

- Oh mãe, estou pr'a ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?

- Não sei, não sei...

Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:

- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

Senta-se a família
À volta da mesa.
Não há sinal da cruz,
Nem oração ou reza.
Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente!

Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papeis
Sem regras nem leis.
E Cristo Menino
A fazer beicinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem estar no coração.
A noite vai terminar
E o Menino, quase a chorar:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive teto nem afeto!

Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:

- Foi este o Natal de Jesus?!!!



João Coelho dos Santos

quinta-feira, 8 de junho de 2017

JACARANDÁS DE LISBOA


Tange o vento sua cítara,
À volta do jacarandá de Lisboa.

Perto, sem cessar, a onda ruge
E embala adormecida canoa.

De algas se vestem as estrelas-do-mar
E, sem saber o seu destino,
Minha alma vagueia em castelos de menino.

Desperta e embeleza-se a aurora,
Que dança nos braços do jacarandá.

Em sua cor sabe o jacarandá
Que há tormentos na esperança
E alegrias no inferno.

É metafórico o falar
Que percorre meus poemas,
Mesmo quando não ecoa
Um qualquer lamento da minha voz.

Enfim, o braço cansado da noite repousou,
Anoiteceu e adormeceu.

Como em tesouro, se guardam as joias
Das flores azuis do jacarandá de Lisboa!

João Coelho dos Santos


segunda-feira, 17 de abril de 2017

SACOLA AO OMBRO



Para trás a maravilhosa infância…
Sacola ao ombro aí vai a menina,
Noite fora caçar estrelas pelo céu
Brilhante de azul, que é o seu.

Vive  dia-a-dia
O adolescente paraíso da luz
Das flores dos amores
E das cores da fantasia.

Sempre disponível voluntariosa
Optimista leal e afectuosa,
Abre-se ao mundo num encanto.

Adora dança, baile e canto.
Tem liberdade e imaginação.
É líder compreensiva, vaidosa,
Mais linda que qualquer rosa.

Não te esqueças menina
Que Mestre de prudência é a prudência.

Sempre é tempo de se meditarem romances
E de se pensar no perigo da atracção dos opostos
Que, na vida, opostos costumam seguir.

Tantos caminhos pode ter a estrela…
Percorre os teus, sempre em paz e alegria,
Sempre feliz, sempre a sorrir.

João Coelho dos Santos



Do livro (35º) FINITO INFINITO
 


sábado, 8 de abril de 2017

SE EU FOSSE





SE EU FOSSE

Se eu fosse
Dono desse sorriso travesso,
Se eu fosse
O grito do silêncio em garganta rouca…

Se eu fosse
Poema que não morre e corre ao vento,
A todo o tempo conheceria as idades
De meu corpo e de minha alma.

Se eu fosse
Paisagem alagada de sol,
A cada madrugada sucederia novo dia.

Se eu fosse
Vaporoso fantasma de diáfana palidez,
Apagaria as chamas
Do olhar com que me chamas.

Se eu fosse
Quimera dolorosa,
Sentiria renascer a paixão da mocidade.

Se eu fosse
Só e voasse como pássaro perdido,
Saberia que, depois da perda,
Se escutam vozes que se calaram.

Se eu fosse
Como a borboleta
Que levita de flor em flor…

Se eu fosse
Porto sem barcos sem água
Sem docas nem gaivotas…

Se eu fosse Prometeu
Que ambicionou o fogo do céu…

Se eu fosse
Feiticeiro e alquimista,
Não queria tanta gente a chorar,
Nem que lhe restasse só a solidão.
As lágrimas também padecem.



João Coelho dos Santos

Do 35º livro – FINITO INFINITO


terça-feira, 19 de abril de 2016


Resultado de imagem para escrever


Escrevi
Enquanto despreocupado
Corria o frio rio
E no sopro de uma aragem
Voava feliz a consciente liberdade
Desprezando a prima libertinagem.

Escrevi
Que no aquietar de ânsias revoltas
Florescem vazios e ausências
Sem saber se um dia voltas
E que triste é a criança
Que não nasce criança
Nem nunca falou de esperança.

Escrevi
Que mais além te levará o sonho
E que, repetidos, sem acaso,
Sempre surgem o ocaso
E fingidos luares sem lua.

No esvoaçar da negra andorinha
E na espera da risonha primavera
Sem dor no cair da pétala
Chora a flor. Chora, chora!


João Coelho dos santos

Do livro NA ESQUINA DA VIDA


domingo, 26 de julho de 2015


















CARÍCIA DA TUA MÃO

Vou escrever-te um poema
E esperar-te mudo e sozinho
Com olhos rasos de água.
É em silêncio, silêncio das razões vencidas,
Que tantas vezes me falas,
Para não me afogares em palavras
Da cor das ondas e de teus olhos feiticeiros.

É tão fantasiosa a roupagem da saudade!
Porque teimam em soluçar
Muitas palavras de meus versos?
Vale-me a carícia da tua mão
A afagar-me a alma.

Não sei se é a chuva que chora
Esta lágrima que esquecida, por ti,
Suave desliza em meu rosto.

João Coelho dos Santos

quinta-feira, 13 de março de 2014

ENTRE O PRINCÍPIO E O FIM - João Coelho dos Santos




ENTRE O PRINCÍPIO E O FIM

Não deixes que morra a tua crença!
Sacode as cinzas primeiras que apareçam
E, na dúvida, vê se outra maior não terás.

Teu crer, sem esforço, de novo sentirás
E bendito será o caminho do regresso.
Entre o princípio e o fim
Vai uma distância imensa…

Não mais sentirás mãos vazias, sem leme,
Ou âncoras soltas, sem garras.
O espaço infinito não será, não poderá ser,
Épica solidão do espírito.

Se deixares morrer o sonho, renova-o,
Cria outro! Isso só, justifica o existir.


João Coelho dos Santos

do livro
70 - SETENTA - 70
no prelo