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quarta-feira, 28 de junho de 2017

Digo Mãe. Digo Filha



  
Floresceram as cerejeiras no lento tempo do pólen.
E vieram as abelhas, e as primeiras cerejas,
e o puríssimo mel.
Veio também o mês de maio
e, com ele, a trémula ondulação das palavras.
Digo mãe. Digo filha.
Palavras ajustadas à inquieta harmonia do sangue.
Palavras que se tocam como rios
da mesma nascente inundados,
pela mesma sede procurados.
Palavras que se dizem, que se calam,
que se questionam, que se entrelaçam.
Onde estás, mãe?
Tem cuidado contigo, filha!

Graça Pires, 2017



Imagem: Menez

terça-feira, 29 de novembro de 2016



Tantas vezes vida, tantas vezes morte

Neste momento dou ao meu perfil 
a configuração de uma haste 
que, ao primeiro sopro do vento, 
adivinha um fogo posto nas palavras.
Conheço o rigor das noites 
e o alarmante traço 
da obsessão pelas trevas 
que me cingem os braços
quando o reflexo do luar
incide nas manchas do meu rosto 
e com os mais antigos olhos 
posso rever o passado: 
tantas vezes vida, tantas vezes morte.

Graça Pires

De Uma claridade que cega, 2015

terça-feira, 8 de novembro de 2016




Aceito que o olhar teça e desteça
o contraste dos dias num bailado
de gestos que se desdobram
e prolongam para além da pele.
Quero-me no centro do espaço
onde tudo começa e acaba,
onde me uno e desagrego,
onde me deixo habitar
por uma quietude imensa.
Desvinculo-me de todos os enredos
para que a osmose das trevas e da luz
alcance o resgate do corpo
que se retalha roçando o chão
e se dissipa em pleno voo.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015