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domingo, 30 de setembro de 2018

INFÃNCIA




INFÃNCIA

e jogava ao pião com Deus
enquanto minha mãe estendia a roupa
e o meu pai mendigava o pão

e minha alegria nesse tempo
era próxima da dos meninos
e de Deus que ganhava sempre

e não sei quem perdi primeiro:
o pião ou Deus
apenas sei que deus continua
a jogar com outros meninos

e que no Outono quando saio à praça
nos sentamos e falamos muito
do suave rodopiar das folhas

Daniel Faria


sexta-feira, 9 de junho de 2017

Amo o Caminho que Estendes




Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.

Daniel Faria


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Errância



Errância

Arruma as tuas alegrias
E faz as malas como se fosses emigrante
Leva contigo todas as coisas
E parte de dia como se fosses emigrante
Para que possas levar também a luz
Abre a cal. O flanco do muro
Porque vais como emigrante e precisas
De regressar
Na parede faz uma abertura
Para que os que passam vejam o teu rosto
E não digam: vai beber ao poço
Vai visitar um parente no estrangeiro
Ninguém chora por razões assim
Parte de tarde, dobrando a luz
Cobrindo o rosto de cinza e de sombra
Porque és um povo que abandona a tua casa
E nos teus passos eu arraso o teu país


Daniel Faria


domingo, 19 de junho de 2016



Estranho é o Sono que não te Devolve


Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.

Daniel Faria


sexta-feira, 10 de abril de 2015



Daniel Faria


10/4/1971 //  9/6/1999







Um coração de sangue

Um coração de sangue
Um coração de xisto e aço
Um coração angular e redondo
Como a pedra que te abre
Do interior do chão

Um coração solar
De granito
De carne
Curado da noite de nascença

Um coração de homem
Um coração de homem vivo
Um coração de criança ao colo
Interior
-Mais interior do que o sangue no coração que me darás-

Peço um coração
Nuclear



Daniel Faria - de Explicação das Árvores e de Outros Animais - 1998