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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Bóiam leves



Bóiam leves


Bóiam leves, desatentos,
Meus pensamentos
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.

Bóiam como folhas mortas
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.

Sono de ser, sem remédio,
Vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.

Fernando Pessoa – Cancioneiro

terça-feira, 13 de junho de 2017

Em dia de aniversário do Poeta, lembremos as suas Quadras Populares






Quadras ao gosto popular
Fernando Pessoa

Cantigas de portugueses
São como barcos no mar —
Vão de uma alma para outra
Com riscos de naufragar.

A caixa que não tem tampa
Fica sempre destapada
Dá-me um sorriso dos teus
Porque não quero mais nada.

No baile em que dançam todos
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem estar.

Vale a pena ser discreto?
Não sei bem se vale a pena.
O melhor é estar quieto
E ter a cara serena.


Tenho um relógio parado
Por onde sempre me guio.
O relógio é emprestado
E tem as horas a fio.

Fernando Pessoa


Fernando Pessoa - Não sei quantas almas tenho (por José-António Moreira)

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Recordar Fernando Pessoa




Horizonte

O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa ---
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte ---
Os beijos merecidos da Verdade.

Fernando Pessoa


sexta-feira, 16 de setembro de 2016







Não Tenho Pressa










Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega -
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa 




segunda-feira, 22 de agosto de 2016


Resultado de imagem para fernando pessoa



O vento sopra lá fora.
Faz-me mais sozinho, e agora
Porque não choro, ele chora.

É um som abstracto e fundo.
Vem do fim vago do mundo.
Seu sentido é ser profundo.

Diz-me que nada há em tudo.
Que a virtude não é escudo
E que o melhor é ser mudo.


Fernando Pessoa

terça-feira, 12 de julho de 2016


















O DOS CASTELOS
      

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.



Fernando Pessoa, in Mensagem 


sábado, 2 de julho de 2016




O MENINO DA SUA MÃE

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
— Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.


Fernando Pessoa 


domingo, 26 de junho de 2016




Ela canta, pobre ceifeira

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente 'stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa 


domingo, 19 de junho de 2016

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: <<Fui eu?>>
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa




domingo, 30 de novembro de 2014

Um apontamento de António Cardoso Pinto sobre Fernando Pessoa

.. na POESIA não era só ele ...
Ele era também Álvaro de Campos e Alberto Caeiro e Ricardo Reis
e era-os profundamente, como só ele sabia ser
na poesia como na vida
na vida como na arte.

Tudo nele era inesperado
desde a sua vida, até aos seus poemas, até à sua morte.
Inesperadamente,
como se se anunciasse um livro ou uma nova corrente literária por ele
idealizada e vitalizada,
correu em Lisboa a notícia da sua morte :
era um sábado, esse 30 de Novembro de 1935
Ele dizia:
O meu sentido interior predomina de tal modo sobre os meus cinco sentidos
que vejo coisas nesta vida - acredito-o - de uma forma diferente dos outros homens.
Há para mim - houve - toda uma riqueza de significações em coisas tão ridículas como a chave de uma porta, um prego na parede, os bigodes de um gato.
Há para mim toda a plenitude de sugestões espirituais numa galinha que atravessa a rua com os seus pintainhos.
Há para mim todo um significado mais profundo do que os próprios receios humanos no cheiro de sândalo, em latas velhas num monte de lixo,
numa caixa de fósforos deixada numa valeta, em dois papéis sujos que
num dia de vento esvoaçam e se perseguem pela rua abaixo.
Porque a poesia é espanto, admiração ... *
O que dele disseram :

"Era um senhor suavemente simpático, muito bem vestido que levava
escondido no lábio superior um sorriso discretamente irónico.
A calvície, os olhos gastos, esse seu jeito de estar sentado com as mãos
sobre os joelhos, essa sua voz velada, davam-lhe um ar estrangeiro,
distante no tempo e no espaço." *
» Jorge de Sena «

"Aprendi o suficiente português para poder ler Pessoa directamente." *
» Samuel Beckett «

"O leitor de Pessoa jamais poderá entender o verdadeiro alcance da sua
obra se se limita, como é geralmente o caso, a considerar cada heterónimo
como um todo. Só a 'mise-en-scène espiritual exacta', que Mallarmé
valorava mais do que qualquer outra, lhe permitirá orquestrar as vozes
dispersas das diferentes personagens." *
» Maria Teresa Rita Lopes «

"Neste homem havia tal lucidez que só é possível imaginá-lo consciente do
que estava escrevendo: e é de supor que não o estaria menos numa das
Odes impecáveis de Ricardo Reis do que num poema aparentemente
espontâneo de Álvaro de Campos. Se há, de facto, um drama do homem
na poesia de Pessoa, é o drama da lucidez implacável." *
» Adolfo Casais Monteiro «
* * *
... sentir tudo e de todas as maneiras.
sentir tudo excessivamente ....

... Tudo vale a pena
se a alma não é pequena ...

... Fui tudo, nada vale a pena ...

... Já sobre o meu vazio coração
desceu a inconsciência abençoada
de nem querer uma ilusão ...

... Sou um navio que chegou a um porto
e cujo movimento é ali estar ...

... A poesia é espanto,
admiração ...

... Quebra-te, coração ... *
* * *

* Disse-nos Adeus há 79 anos * A sua Estrela brilha ! *

"... eu não tenho filosofia tenho sentidos" Fernando Pessoa disse-nos adeus há 79 anos, " A sua Estrela brilha!"