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quinta-feira, 28 de abril de 2016




MENINO DO ARCO

E vínhamos vindo, do alto das manhãs,
por entre as brumas, como um bando de petizes,
ainda imberbes, ainda de calções,
com lágrimas nos olhos, infelizes...

Fomos arrancados ao seio protetor das nossas mães
ao solo onde nascemos, onde era o ninho,
e como árvores sacudidos pelos ventos
fomos atirados ao destino...

Uma mãe chorosa, limpando as lágrimas junto à porta,
também ela infeliz e destroçada
como se lhe arrancassem o coração em sangue
pela espada...

Mas o homem é feito de lava, dos vulcões,
de tempestades, de angústias e cansaços,
peito aberto ao futuro e ao que vier
e à infinita dimensão dos nossos braços...

Lá longe, a mãe, por entre a névoa,
do silêncio esmagador e da solidão atroz,
olhava os loges, esperando,
e quem vinha chegando não era nenhum de nós...

E entre o som e a fúria, entre a dor e a solidão,
de novo transplantados, demos frutos
e brotamos do solo à clara luz do dia
mais fortes, mais seguros, mais ágeis, mais astutos...

E caminhamos sempre em frente sem nunca nos determos
que a jornada ainda agora começara
e fomos soletrando letra a letra o que sonhamos
e indo mais longe, se mais longe houvera...

E ninguém conseguiu deter a marcha
destes frágeis seres arrancados à infância
e hoje estamos por aí mais fortes do que dantes 
espalhados como sementes de ouro na distância...

E olhando para trás, de regresso ao tempo primitivo e puro
ao tempo em que o tempo era primevo
não deixamos de ser ainda um bando de petizes
é certo que mais velhos, não renego

Mas o homem é feito destes sonhos
desta luz e sol, desta nunca finda caminhada,
e por isso vamos por aí soltos no vento,
que à nossa frente ainda há muita estrada...


                                                             A. Alves Cardoso